domingo, 4 de novembro de 2007

Como se "Pensou Portugal Novo"

Em 1971, Marcelo Caetano sabia que os dias do império colonial português estavam na berlinda. Para virar o jogo, criou uma nova ideologia que deveria "Pensar Portugal Novo", ou seja haver uma espécie de confederação portuguesa onde cada estado seria autónomo, incluindo o Portugal europeu que passar-se-ia a designar de Lusitânia.

Para melhor impingir estas novas ideias, foi criada uma instituição denominada "Círculo de Estudos Ultramarinos" que tinha entre outros o objectivo de promover cursos de iniciação à política, nomeadamente à volta do tal novo figurino para Portugal.

Foi assim, que os melhores alunos dos liceus Gil Eanes e Adriano Moreira, foram seleccionados para frequentar estes cursos. O primeiro foi na Praia em 1972 e o segundo em Mindelo nas férias da Páscoa de 1973. Integrei este segundo curso, juntamente com mais 29 colegas ( ver neste artigo, as fotos tiradas no Paúl, aquando de uma visita de estudos inserida no programa do curso - faça um clique nelas para vê-las em ponto grande).

Os dez alunos que "melhor assimilaram a ideia do Portugal Novo", ou seja, os melhores classificados no curso, ganharam uma viagem de estudos de um mês à "Lusitânia" durante as férias de verão de 1973. Assim, eu e mais nove colegas cabo-verdianos, entre os quais João Baptista Galvão, Sidónio Monteiro, Carlos Burgo e Idalina Monteiro, estivemos 30 dias a passear por todas as capitais distritais do Portugal continental.

NB: o livro de fim de curso, com poemas de uns dedicados e concernentes a outros, foi entregue a cada um de nós que, de imediato, fez recolher os autógrafos dos colegas, apostos em suas respectivas páginas. Podem ver essas páginas recentemente publicadas num fotolog regido por uma irmã de um dos participantes. Eis o link da 1ª de minhas páginas nesse fotolog (clique no link)

domingo, 28 de outubro de 2007

Também eu atingi os dois dígitos!

Assim como o nosso Primeiro-Ministro prometeu (desde 2001) atingir os "dois dígitos" no valor do peso do crescimento económico e acaba de anunciar o feito, eu também prometi a mim mesmo (desde há menos de dois meses) atingir "dois dígitos" no valor do peso de minha pessoa e acabo de conseguir. Só que eu parti de cima (113Kg) para atingir hoje, dia 28, os 99Kg.

Como pude então em apenas 58 dias, emagrecer 14Kg, comendo à vontade: torresmos, manteiga, enchidos, queijo gordo, natas, carnes, etc.? E meu colesterol até diminuiu. Até parece que estou a mentir não acham? Não continuem as analogias, eis a razão:

Sigo a "Dieta revolucionária do Dr. Atkins", que consiste em não ingerir mais do que 20g de Hidratos de Carbono por dia. Assim fazendo, o pâncreas quase que pára e o teor de insulina reduz-se consideravelmente no sangue. A insulina é a responsável pela condução da glicose (a substância em que boa parte do hidrato de carbono ingerido se converte) às células para que estas a convertam em energia. Ora, não havendo glicose a chegar às células, estas não têm outro remédio senão "pedir" energia às nossas próprias banhas acumuladas. Este método secundário de obtenção de energia pela parte do nosso organismo, chama-se Lipólise.

Vejam o que diz o site "Copacabana runners" e visitem o site oficial de Atkins.

domingo, 21 de outubro de 2007

Bolo de coco com cobertura de chocolate

Bolo de coco à moda da Garda

    350g de açúcar
    370g de manteiga
    6 ovos
    400g de farinha

    1 pacote e meio de baking powder
    2 pitadas de erva-doce
    1 chávena bem cheia de coco ralado
    1 pacote (125 ml) de leite de coco.

    Bate-se a manteiga com o açúcar até se obter um creme, juntam-se as gemas e continua-se a bater a massa (deve ficar muito bem batida). Adicionam-se as farinhas e demais ingredientes. Por último juntam-se as claras em castelo. Vai ao forno (este deverá ser pré-aquecido a uma elevada temperatura) em forma untada de manteiga e polvilhada de farinha. Depois de assado, corta-se o bolo ao meio, recheia-se e cobre-se ou com chocolate ou com um creme de coco. Decore a seu gosto

    para o recheio:
    • 1 coco ralado
    • leite condensado q.b.
    • 1 colher de sopa de manteiga
    • 1 pacote (125ml) de leite de coco
    • 1 pitada de noz-moscada
    Misturam-se estes ingredientes e leva-se a lume brando até à cozedura total do coco

    para a cobertura:
    • chocolate (culinário) em barra q.b.
    • uma lata de leite condensado q.b.
    Se desejar, pode substituir a cobertura de chocolate, por uma de coco (a mesma mistura que usou para o recheio)


    domingo, 14 de outubro de 2007

    O Xá da Pérsia está em minha casa

    Pois é! Quem me mandou anunciar que este Blog era de periodicidade semanal! Já lá vão uns meses que não honrei a minha promessa.

    Recomeço agora com um pouco sobre os animais domésticos que circulam à minha volta. Não que eu ache que o mundo deva conhece-los (os meus), mas sim porque pode ser útil saber um pouco mais sobre os mesmos (o tipo e/ou raça em questão).

    Um gato Persa não deve ser confundido com um gato Angorá. Muita gente usa indiscriminadamente estes nomes, pensando que se referem à mesma raça. Vejamos então as diferenças descritas no site "Raças de gatos"

    "Corpo e cabeça: é muito comum as pessoas confundirem o gato angorá com o persa. Porém, ele [o angorá] apresenta características muito diferentes. O corpo e a cauda são mais longos, e sua cabeça é menor, com orelhas retas. É um gato de porte médio; seus membros posteriores devem ser um pouco maiores que os anteriores, deixando a garupa mais elevada. Sua principal diferença em relação ao gato persa está no nariz mais longo e no fato de não apresentar o “stop” acentuado, que dá o aspecto de carinha amassada do persa. O angorá apresenta tufos de pêlos nas orelhas. Os gatos brancos devem apresentar o nariz e os coxins palmares e plantares com coloração rosa. Olhos: são grandes e amendoados, com coloração azul, âmbar ou ímpares (um azul e outro âmbar ou verde)."

    O meu Xá (chamei-o assim pelo seu porte majestoso de um Rei ... da Pérsia; e também pelo trocadilho que a sonoridade induz em relação à língua francesa) nasceu em São Vicente. Porém creio fala agora "badiu". Como rezam as crónicas de seu comportamento, é ele que escolhe o dono e não ao contrário. Só a mim responde ele ao chamamento. Podem constatar no video seguinte:



    Vou agora finalizar, segundo o citado site "Raças de gatos" com a descrição do PERSA:

    É a raça preferida no mundo, sendo a mais alterada pelo homem e a menos parecida com os felinos tradicionais. Sua popularidade é tanta que a quantidade de seus registros supera a de todos os outros gatos de raça juntos. Somente no Brasil, os persas superam 90% dos registros na maior organização de nosso país, o Clube Brasileiro do Gato.

    Origem: os primeiros gatos de pêlo longo e com formas mais esguias chegaram à Europa no século XVI, trazidos de Ankara, na Turquia. Logo depois, lá aportaram também outros de pêlo longo, mais robustos vindos da Pérsia, actual Irão. Ambos foram cruzados e seus descendentes deram origem ao Persa actual. Aqueles que vieram da Turquia formaram a atual raça, Turkish Angorá, hoje um tanto diferente de seus ancestrais.

    Pelagem: densa, com pêlos bem longos, finos e sedosos, que podem formar nós com facilidade, caso o dono não os escove diariamente.

    Cor: a diversidade de cores é muito grande. No início, só haviam cores sólidas (únicas). Hoje, já são reconhecidas mais de 100. Entre as mais comuns temos o chinchila (branco), o brow classic tabby (rajado marrom), tortie (cor de casco de tartaruga) tortoiseshell-and-white (atartarugado e branco), spotted tabby (rajado pintado), bicolor, azul, azul-creme, creme, esfumaçado, camafeu, preto, chocolate e outros. A cor da pelagem deve ainda combinar com uma determinada cor de nariz e dos coxins (preta, azul, chocolate, rosa e cor de tijolo).

    Corpo: linhas robustas e arredondadas. Pernas curtas e retas. Peito profundo e maciço. Abdômen curto e arredondado. Costas retas.

    Cabeça: deve ser redonda e muito maciça, com caixa craniana muito ampla e larga. Orelhas pequenas; bochechas fortes. O focinho é bem curto - deve ter praticamente a mesma medida de comprimento e largura -, o que dá a aparência de nariz achatado, típico da raça.

    Olhos: grandes e ligeiramente arredondados. As cores aceitas são apenas azul, verde e cobre.

    Cauda: curta (porém, proporcional ao tamanho do corpo) e carregada em um ângulo mais baixo do que as costas, mas nunca curva ou arrastando no chão.

    Comportamento: gostam de brincar e subir em árvores. Por isso, precisam de espaço. Podem ser criados em apartamento, desde que o dono o leve para passear sempre.

    Dono ideal: deve reservar alguns minutos do dia para cuidar do pêlo de seu gato.

    Cuidados especiais: a escovação e banho são essenciais para a manutenção da saúde e beleza da pele e dos pêlos. Ajudam também a evitar o aparecimento de bola de pêlos no estômago, que pode causar gastrite crônica e obstrução do intestino. As pelagens dos persas de cor creme, azul e preta ficam queimadas se muito expostas ao sol. Para preservá-las, o ideal é que não tomem mais de uma hora de sol, restrito ao período da manhã.

    Reprodução: deve-se ter cuidado no acasalamento dos gatos brancos com os dois ou apenas um dos olhos azuis, para evitar a surdez. Recomenda-se cruzá-los apenas com parceiros de olhos cor de cobre, para evitar filhotes brancos de olhos azuis, que são mais propensos ao problema de surdez.

    Adestramento: os persas são facilmente adestrados desde que você se empenhe nas lições de adestramento, principalmente antes dele completar um ano de idade.

    Defeitos: cara excessivamente achatada, o que causa: prejuízo à respiração devido as narinas estreitas; irritação e infecção ocular, por causa de ductos lacrimais estreitos ou sem orifício; problemas locomotores por falta de desenvolvimento do cérebro, devido à perda de espaço no crânio, e boca permanentemente semi-aberta pelo deslocamento dos maxilares. Prognatismo. Orelhas grandes. Peito estreito. Costas longas. Pescoço longo e delgado. Cor de olhos pálida. Olhos muito juntos.



    domingo, 17 de junho de 2007

    Caldeirada de Lulas à moda antiga

    A lula é um cefalópede (tem os pés na cabeça) bastante apreciado em Cabo Verde, embora outro cefalópode, o Polvo, seja mais popular.

    Podemos encontrar inúmeras receitas deste molusco pela Internet fora, mas eu não resisto em vos apresentar este divino prato que minha avó fazia baseado numa receita de seu ensebado "Tratado completo de cozinha e copa" uma publicação dos anos vinte do século passado. Vamos então à receita:

    Preparam-se as lulas, dando-lhes um golpe com uma tesoura no saco ou manto, tirando-lhes a cartilagem em forma de pena e separando-lhes as cabeças com os tentáculos, que se aproveitam assim como os mantos. Lava-se tudo muito bem para fazer desaparecer umas películas coradas que cobrem o manto, de modo que os bocados fiquem todos "brancos". Tempere as lulas com sal (molho de soja é melhor) e vinho branco.

    Faz-se um refogado com azeite do bom, cebola, salsa picada e pimenta. Quando a cebola aloirar, deitam-se-lhe os bocados das lulas e passam-se no refogado, acrescenta-se este com tomate e deixa-se ferver até que as lulas estejam bem macias e o molho bem apurado.

    Serve-se em prato aberto, decorado com folhas soltas de salsa. Um vinho verde é de se esperar, mas hoje preferi um simples Mateus Rosé!

    domingo, 10 de junho de 2007

    A Malacologia e a "malucologia" pelas lulas

    "Odjo sima lula trás di cutelo" assim apetecia agora dirigir-me a um fulano (filho meu) que de olhos esbugalhados se encontra ao meu lado a observar-me desferir um golpe de tesoura de cozinha a uma pobre lula (já morta claro!) e a retirar-lhe de seguida a fina cartilagem quase transparente e em forma de pena.

    É que, estou a preparar estes cefalópedes para confeccionar no próximo Domingo um prato de lulas à moda antiga, tal como o fizera nesse dia em que me filmavam para o Intimidades tendo dito isso em público, no referido programa

    Porém, antes de vos presentear com a receita (no próximo Domingo), eis que tenho a ocasião de falar de Malacologia, o ramo da biologia que estuda os moluscos. A parte mais vistosa deste ramo do saber é o estudo dos gastrópodes e dos bivalves, pois têm espécies com conchas belíssimas de grande interesse para coleccionadores. O nome de Malacologista é também aplicado aos coleccionadores de conchas. Encontramos lindas colecções em museus como o do Aquário Vasco da Gama em Lisboa. A Malacologia foi paixão de muito boa gente, como Jean Piaget que na sua adolescência, se interessou bastante por moluscos:

    "Seu interesse por moluscos aparece durante a adolescência quando publicou diversos artigos sobre moluscos, fósseis e zoologia, temas presentes nos estudos que desenvolveu durante toda a sua vida . Tal era sua paixão por este estudo que, naquela ocasião, decidiu que seria um Malacologista."
    Deixo aqui um endereço de um site do Instituto Português de Malacologia, onde poderão baixar números de uma revista científica especializada na matéria.

    Convido-vos na próxima semana a comerem comigo uma caldeirada de lulas à moda antiga.

    domingo, 3 de junho de 2007

    Tragamos a claro o Bolo Escuro de Garda !

    Eis que Garda faz de novo um passe mágico e ressurge o seu famoso Bolo Escuro. Famoso porque sendo sempre uma delícia, de cada vez que o faz sai com um sabor diferente! Nem ela sabe bem porquê. O certo é que ninguém se queixou até agora.


    Bolo Escuro à moda da Garda
    • 300g de açúcar
    • 600g de manteiga derretida
    • 10 ovos
    • 2 pacotes de baking powder
    • 500g de farinha
    • 1/2 chávena de "mel-de-cana"
    • 1 chávena de açúcar queimado
    • 1 chávena de bebidas misturadas: aguardente de cana, vinho do Porto e whisky.
    • 1 chávena e meia de frutas cristalizadas, nozes e corintos (doseados a seu gosto)
    • até (a seu gosto) 1 colher de chá de: noz moscada, de cravinho, de erva doce e de canela
    • Raspa de um limão (lima de preferência)
    NB: se não tiver mel-de-cana, use 400g de açúcar em vez de 300g

    Derreta a manteiga (não é margarina nem é "Planta") e misture o açúcar (o primeiro segredo está em bater estes ingredientes muito bem!) . Acrescente as gemas uma a uma batendo sempre (guarde as claras para as adicionar no fim, batidas em castelo) .

    Após bem batida, adicione a farinha misturada com o fermento (baking powder) e continue a bater. Vêm agora o mel-de-cana, as bebidas e as especiarias (cravinho, etc).

    Em seguida, juntam-se as claras batidas em castelo, o açúcar queimado e as frutas cristalizadas, nozes e corintos (ou passas).

    NB: as frutas cristalizadas sortidas, os corintos e as nozes devem ser previamente picadas em pedacinhos e enfarinhadas.

    Segundo segredo: Deixe as frutas cristalizadas, os coríntios e as nozes, macerar durante um a dois dias, na mistura de bebidas à qual se juntaram as especiarias. No momento da feitura do bolo, coe as partes sólidas que serão de seguida enfarinhadas e verta o líquido na massa do bolo (as adições são nos momentos indicados na receita)

    Vai ao forno pré-aquecido, em forma bem untada de manteiga e polvilhada de farinha.

    Que tal saborear o bolo com um "Blue Coração", para variar ao clássico vinho do Porto!

    domingo, 20 de maio de 2007

    Memórias do Liceu Adriano Moreira na Praia

    O meu percurso liceal foi pautado pela constante presença na crista da onda das transições. Tendo passado da 4ª classe para o ensino secundário no ano em que se abolira a “Admissão” e se criara o Ciclo Preparatório, deparei com a estreia da matemática moderna no novo plano curricular. A nossa professora de matemática era uma jovem açoriana de S. Miguel e de bata mais curta que a gestão moralista do liceu e da época impunham, lá nos ia captando a atenção (sobretudo aos rapazes de 12 anos; eu tinha 10) ao mesmo tempo que proferia uns “conjuuuntos dijuuuntos” com seu bom e típico sotaque micaelense.

    Esta cena passava-se no saudoso ano lectivo de 1967-1968, ano em que ia pela primeira vez sentar-me nas carteiras de mogno, já riscadas, gatafunhadas e autografadas, do Liceu Adriano Moreira, sito na cidade da Praia, província ultramarina de Cabo Verde.

    Confesso que embora sempre fosse um aluno atento e interessado, passei sete anos nesse liceu sem me ocorrer perguntar quem era Adriano Moreira e muito menos a razão por que puseram o nome de alguém vivo à linda e frondosa construção, considerada uma jóia de arquitectura e o liceu mais imponente do império colonial português. Tinha salão nobre, escadarias encimadas por quadros históricos dos descobrimentos (em azulejos) e uma belíssima torre com relógio e pára-raios.

    Na senda das transições, apenas tirei a fotografia fardado da Mocidade Portuguesa, por razões administrativas, mas não desfilei nesse organismo pois a frequência deixara de ser obrigatória. No entanto, deleitávamos a ver passar os rapazes mais velhos “cantando e rindo” levados sim por não sei que chamariz mágico, de braços erguidos para a frente em ângulos de 45º.

    Embora sem ésses no cinto e vendo os braços a 45º ao longe, não podíamos deixar de encontrar o nome e os retratos de Oliveira Salazar por todos os cantos desse liceu, nos livros e nos discursos de início de ano lectivo. A “força” estava patente nas normas e orientações, hoje consideradas inqualificáveis, da proibição de falar o crioulo, das turmas separadas por sexos, das grades circundando o liceu, das aulas obrigatórias de Religião (Católica), de alguns alunos que pareciam patrulhar os corredores e eram amigos dos filhos do inspector da PIDE.

    Esta linha cortante, qual machado de lenhador, era materializada por um risco branco no pátio do liceu que separava os alunos de bata branca dos outros. Ai de quem transpusesse a fronteira!

    Em 1970, com a substituição das fotografias nas salas de aula, começou a haver turmas mistas. Experiência tímida e piloto, lá fui eu para o 4º ano renovado, com 14 anos acabados de completar, inaugurar a primeira turma mista do liceu. Éramos seis púberes no meio de vinte e sete adolescentes calmeironas. Fomos singularizados pela nossa inofensiva idade (os mais novos do 4º ano) e colocados na turma de alunas mais velhas.

    Tinha muita piada ter as colegas à nossa volta, pelas mais diversas razões menos pela biológica: umas porque éramos os melhores alunos e queriam nos “explorar”, outras exerciam poder maternal de nos proteger, e ainda havia as que nos queriam “tirar da casca” fazendo-nos retirar os agrafos que selavam algumas páginas dos Lusíadas que o docente “Sapinho” nos fizera agrafar no 1º dia de aulas, por conter estrofes que não eram para a nossa idade (censura decretada superiormente).

    Sapinho era a alcunha do nosso afamado professor de língua portuguesa. Este nortenho, antigo seminarista, tinha o condão de fazer variar a vermelhidão de suas bochechas batraquianas consoante se entusiasmava ou se encolerizava (o que podia ser considerado normal) mas também conforme a ênfase que punha nos trechos que nos lia. Gostava muito de nos recitar umas linhas, a cada vez que se encontrava de bom humor esquecendo-se que era a enésima vez que o fazia:

    “Ó tocador da biola repenica-me estes dedos, se te cobraram as cordas, aqui tens os meus cabelos”.

    Um belo dia um dos nossos colegas levantou-se (muito sério) e perguntou-lhe porque era que os habitantes do norte de Portugal diziam “binho” em vez de vinho.

    - Sabe, esta coisa de trocar os bês pelos “bês” é confusão do pobo.

    - Então o Sr. é do “pobo” ! ouviu-se uma voz lá de trás (até agora por identificar).

    No teste seguinte, o nosso humilhado professor se vingou ao colocar as cinco perguntas, dependentes da primeira, onde usara um vocábulo chave, por nós desconhecido.

    Salvo raríssimas excepções, os nossos professores eram muito competentes e sabiam ensinar. O Liceu era bem equipado e adorávamos as aulas práticas, fazendo experiências de química sobre os tampos em ardósia das mesas do laboratório, ou dissecando ratos sob os gritinhos histéricos das matulonas nossas colegas.

    O professor de ginástica, usava uns calções tão largos que a cada frase do seu monólogo de início de aula, fazia-os subir ao longo da cintura para deixá-los decair na frase seguinte e recomeçar o ciclo na terceira. Todos os anos dizia que era a última vez que nos dava aulas pois não era esse o seu ganha-pão (era funcionário do banco) e estava farto de ... (e desbobinava um rosário de injustiças e incongruências).

    No ano seguinte lá estava ele subindo os calções de novo e dizendo que muito lhe tinham rogado para dar essas aulas mas que seria...”a última vez”.

    Não posso deixar de mencionar o professor de ciências naturais, o qual mais me marcou e fez nascer em mim o gosto pela ciência e o espírito crítico. Baltazar era o nome desse Goês que tinha o curso de medicina sem o ter exercido, o de farmácia e dois anos de Direito. Exímio xadrezista lá usava “cascas de banana” nos seus testes e perguntas de raciocínios múltiplos à semelhança dos que se praticam nesse seu hobby favorito.

    O Liceu tinha cerca de 400 alunos ao todo e o quadro de honra era para aqueles que não tinham nenhuma nota inferior a doze valores (cerca de nove disciplinas). O nº de alunos no Q. H. não ultrapassava 20. Conclui-se que eram apenas 5%, os considerados bons alunos e que, 12 valores eram difíceis de apanhar.

    Graças ao Dr. Baltazar que sempre nos motivou para a excelência, pude ser “medalha de bronze” desse liceu, indo todos os anos (do 1º ao 5º) receber o prémio de 3º melhor aluno e o de 1º em matemática. A “medalha de prata” estava um ano mais avançada do que eu e “a de ouro” dois anos. (ambas tinham excelente desempenho em língua portuguesa e em história). No ano em que a “medalha de prata” foi estudar para Portugal veio o 25 de Abril e não houve mais prémios nesse Liceu. Assim acabei o 7º ano no ano da Independência realizando a ambição de ser o “medalha de ouro”, mas virtual, pois já não os havia prémios.

    O 25 de Abril caiu de surpresa e ninguém parecia avaliar o impacte do que tinha acontecido, até o 1º de Maio seguinte onde então cada um deu uma de sua graça, manifestando-se das mais diversas formas. Alguns professores conotados com a PIDE foram impedidos pelos alunos de entrar no liceu, debaixo de apupos e insultos. Houve um até que viu seu automóvel incendiado.

    À medida que os dias se passavam as coisas pioravam e as aulas eram boicotadas. Muitos professores abandonaram as ilhas. Tivemos apenas a avaliação de dois períodos.

    No ano lectivo seguinte (1974/75), o elenco de professores mudou radicalmente. Alguns cabo-verdianos da diáspora e de esquerda, vieram nos substituir os conteúdos de Filosofia de pensadores clássicos, pelos do Materialismo Dialéctico, assim como a de Organização Política que passou do corporativismo do Estado Novo para os “meios de produção”, “ditadura do proletariado” etc.

    Nesse ano, as grades deixaram de ter efeito e os estudantes misturavam-se e conviviam sem medos nem receios. É claro que o aproveitamento foi menor mas estava-se bem e ansiosos pelo dia da independência

    Como se vê, comecei e acabei, irmanado com as transições, mudanças e inovações.

    Este texto foi publicado num trabalho coordenado por: PEREIRA, Sara Marques., ed. Memórias do liceu português.Lisbon: Horizonte, 2006. Colecção Biblioteca do Educador. Lge. 8°, orig. illus. wrps. 319 pp., illus.ISBN: 972-24-1426-7.

    domingo, 13 de maio de 2007

    Um pouco da minha história

    O programa Intimidades teve a gentileza de me convidar a participar e a contar um pouco da minha história de vida. Foram 25 minutos onde espelhei um pouco de mim, através de recordações de infância e da adolescência.

    Tendo sido apresentado como Reitor da Universidade Jean Piaget de Cabo Verde, achei por bem colocar a 1ª parte do programa no Blog do Reitor.

    A 2ª parte do programa desenvolve-se sob o título "Retratos de uma vida" que é uma curta narrativa do percurso da pessoa havendo como pano de fundo uma sucessão de fotografias e figuras com uma tonalidade sépia prepositadamente criada para dar a tal sensação de passado. Por isso coloquei-a na minha página do site genealógico que desenvolvo (sigam o link assinalado).

    Agora vão poder seguir as restantes partes do citado programa; eis a 3ª parte onde inicio com a narração de como meu pai se preocupava com o eu não querer sair à rua e preferir ficar em casa:



    Esta 4ª parte inicia-se com a rubrica interna "A palavra dos outros" e deparamos logo com o que Silvano Barros diz da sua missão de servir de capataz da irmã.




    Vejamos agora a 5ª parte que se inicia com mais uma ronda da "A palavra dos outros", desta feita com pessoas amigas com quem trabalhei; falo agora do meu percurso em prol do Ensino Superior:



    Para finalizar, eis a última parte onde falo de gastronomia:

    domingo, 6 de maio de 2007

    A verdadeira história do pseudónimo B. Leza

    Várias vezes tenho ouvido as mais especulativas versões da razão pela qual o grande compositor cabo-verdiano Francisco Xavier da Cruz é conhecido por B.Leza ou Beléza. Uns até chegam ao cúmulo de alegar que um brasileiro de passagem por Mindelo, terá ouvido Xavier tocar uma morna e exclamara: "Qui beléza!".... E acham que o nosso compositor iria passar a usar o pseudónimo B. Léza por causa disso? A exclamação do brasileiro referia-se à música ou, quanto mais não seja, à situação vivida; Francisco não iria atribuir a si próprio um pseudónimo que não lhe dissesse nada sobre si ou sua vida. Um pseudónimo não é uma alcunha, é algo íntimo e de especial significado para quem o escolheu e o usa.

    Posto isto, vou lhes contar uma pequena história familiar:

    Francisco Xavier era funcionário dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones) e fora colocado em serviço na ilha do Fogo. Rapaz novo, apaixonou-se perdidamente por uma das mais lindas (quiçá ricas) donzelas de São Filipe: uma das filhas mais novas do conhecido armador e capitão Djédjé de nh' Antóni ou seja de meu bisavô José António da Silva Essa filha, de nome Raquel, era tão linda (de "cabelo basado") que era conhecida pelo nome de ... Beleza!

    E o casamento até já estava marcado, quando o nosso Francisco teve um rombo nos cofres dos CTT, à sua guarda. Para evitar o escândalo, uma vez que Francisco Xavier era um homem honesto e o desfalque surgiu por possível negligência contabilística, o futuro sogro "bancou" com a quantia em falta que foi imediatamente reposta no cofre dos CTT e o caso foi abafado.

    Francisco Xavier foi no entanto e de seguida, transferido, tendo o namoro, por força da distância, esfriado. Francisco, em homenagem ao seu grande amor, adoptou discretamente o pseudónimo B.Leza.

    domingo, 29 de abril de 2007

    Um dos bolos de laranja de Garda Brito

    Garda Brito, minha mulher, é conhecida por ser uma grande "fazedeira" de bolos e sobremesas divinas. Confesso que não sou de coisas doces, mas não deixo de concordar com a sabedoria popular no que alega a respeito de Garda.
    Assim, resolvi hoje, ao ver que ela acabara de confeccionar um bolo de laranja para oferecer, trazer para este blog as receitas da Dona Garda.

    Bolo de laranja à moda da Mena

    • 2 chávenas de açúcar
    • 1/4 (250g) de manteiga Castelo
    • 5 ovos
    • 3 chávenas de farinha
    • 1 pacote de fermento (baking powder)
    • 2 chávenas de sumo de laranja
    • raspa de uma das laranjas
    Numa boa batedeira eléctrica (pode bater à mão se preferir) misture muito bem a manteiga (tem de ser manteiga mesmo, margarina não serve) e o açúcar ; acrescente uma a uma as gemas dos ovos (guarde as claras para as adicionar no fim, batidas em castelo). Adicione a farinha e o fermento e bata bem. Sumo das laranjas e a raspa de uma delas vem a seguir. Por último adicione as claras em castelo e incorpore bem.

    Enquanto a mistura vai ao forno em forma de seu gosto (untada e enfarinhada) mas de preferência com uma cova central para albergar a calda de laranja, prepare esta da seguinte maneira:

    Leve ao lume meia chávena de açúcar misturada a 1 chávena de água e ao conteúdo de um desses pacotes de sumo de laranja em pó (marca Frisco por exemplo). Deixe atingir o ponto.

    Uma vez desenformado o bolo e colocado o mesmo sobre um prato de vidro, regue (o bolo deve estar ainda quente) com um pouco da calda e verta o grosso da mesma na cova central do bolo. Decore com rodelas de laranja a seu gosto, engenho e arte.

    Bom proveito!

    domingo, 22 de abril de 2007

    Nhu Cosmi acaba por se casar com a crioula Mariana

    De vez-em-quando me lembro do regozijo envolto na observação feita pelo meu primo e amigo António Correia e Silva por ocasião da sua tomada de posse como Reitor da UniCV:
    "Nhu Cosme deve lá onde estiver, sentir-se orgulhoso por serem os dois primeiros reitores cabo-verdianos em Cabo Verde trinetos dele"

    Francisco Cosme Nunes, um homem de um metro e meio nascido em Lamego, era porém oficial da marinha de D. Maria II de Portugal que o enviou para Cabo Verde para servir nas Alfândegas da colónia. Foi colocado na chefia do posto alfandegário de Pedra Badejo e ao se instalar teve necessidade de uma governanta de confiança, que lhe cuidasse da casa. Lourenço Lobo de Miranda, um militar com quem travou amizade, indicou-lhe uma jovem de seus 17 anos, filha do mesmo com uma "badia" de nome Maria Vaz, para lhe ir "aguentando" a casa enquanto se procurava uma mais "madura" governanta. Pelo menos nessa (de nome Mariana) ele Miranda tinha confiança.

    Porém o jovem Cosme Nunes não perdeu tempo em engravidar a linda crioula e o carácter provisório das lides de governanta, tornou-se definitivo. Cosme Nunes viveu em união de facto com Mariana durante longos anos e com ela teve seis filhos. A todos deu a melhor educação que podia, tendo o primeiro seguido o Seminário Maior e tornando-se no conhecido padre João Henriques Nunes de Aguiar. O segundo de seus filhos estudou em Mafra e o último era também um homem influente nas lides políticas da época.

    Cosme Nunes veio a ser nomeado Director das Alfândegas de Cabo Verde e de entre várias homenagens recebidas, destaca-se a medalha de ouro concedida pelo imperador de França:
    "pela sua bela conduta na qualidade de Director das Alfândegas de Cabo Verde, aquando do naufrágio a 21 de junho de 1861 do navio comercial francês "Le Georges" ao largo de Pedra Badejo"

    Nos seus últimos dias, acamado, seguiu os conselhos de seu filho mais velho, que celebrou o sacramento matrimonial de seus pais, podendo assim Cosme morrer em paz e chegar aos céus de cara lavada, pois sua relação com Mariana já tivera a bênção de Deus.

    domingo, 15 de abril de 2007

    Menos casas ... mais árvores - II

    Vejam como há bem poucos anos atrás eram menos as casas e mais as árvores no início da Avenida Cidade de Lisboa na Praia (sem o "homem de pedra")

    Em 2005 já era assim o panorama, com mais construções e muito menos árvores:

    domingo, 8 de abril de 2007

    Os meus queridos alunos - I

    E eis que em 1982, começo a dar aulas no ensino superior. A minha primeira turma era constituída por alunos que seguiam formação conducente a técnicos médios (bacharéis) do domínio agrário. As aulas desenrolavam-se no Centro de Formação Agrária do então Centro de Estudos Agrários (actual INIDA).

    É com muito gosto que reproduzo aqui algumas fotos gentilmente cedidas por um desses meus primeiros alunos:
    A turma (menos o fotógrafo)

    Supervisionada pelo professor

    Vai em viagem de estudos ao Fogo

    domingo, 1 de abril de 2007

    A mulher cabo-verdiana



    Para mim, a mulher cabo-verdiana é a heroína das lides difíceis que desde a tenra idade labuta pelos campos e ourelas de mar, carregando fardos e mágoas, sacrificando-se (muitas vezes mãe chefe-de-família) para que os filhos tenham vida melhor.

    Por ocasião do 27 de Março de 2007, os produtores da série "Nha terra, nha crêtcheu", quiseram um depoimento meu a respeito da mulher cabo-verdiana. Eis pois um extracto do referido programa onde este meu depoimento se junta a outros de homens cabo-verdianos que também foram entrevistados.