domingo, 16 de março de 2008

Histórica moeda entre o desprezo e o menosprezo

Esta é a primeira moeda que levou o cunho de Cabo Verde. Foi posta a circular em 1930 (Decreto nº18495 de 24.I.1930) e a sua tiragem foi de um milhão de exemplares.

Já se aperceberam, meus caros leitores, que vou finalmente falar de Numismática. O que vos parece obscuro é talvez o enigmático título. Porém, lá chegaremos, mas não sem antes conhecermos melhor a história desta moeda e de como me deparei numismata.

Rapidamente podem encontrar na Wikipédia, uma conseguida explicação do vocábulo e de seu significado. Eis o primeiro parágrafo da referida explicação:
"Numismática (do grego clássico νόμισμα - nomisma, através do latim numisma, moeda) é a ciência auxiliar da história que tem por objetivo o estudo das moedas e das medalhas."
Na casa onde cresci (e onde moro: localizem-na no pano de fundo do cabeçalho deste blog) há um vasto alçapão onde na época minha avó mantinha baús e velharias do século XIX, quiçá, XVIII. Curiosidade infantil, aliada à minha nativa tendência para a investigação, levava-me a fazer incursões exploratórias ao alçapão, em busca de não sei que tesouro escondido. Acreditem, encontrava coisas fabulosas e um belo dia desencantei umas antigas moedas do tempo da monarquia (vinténs, patacos, "derés" e outras) entre as quais se destacava um D. Luís de prata! Este foi o rastilho e a energia de activação da minha entrada para o grupo dos numismatas! (to be continued...)

Agora vejamos um pouco da história da primeira cunhagem de moedas próprias de Cabo Verde, com o nome da então colónia devidamente evidenciado. É com a devida vénia ao Eng.º de Sistemas Fernando Rodrigo C. Romão e Alves da Silva que transcrevo o seguinte texto de um site seu:

As moedas de Portugal e as que se obtinham com o comércio externo compuseram desde a origem a numerário desta Província.

LOPES FERNANDES, na sua Memoria das Moedas Correntes em Portugal, descreve o que se passava na sua época, já no século XIX. "As moedas do reino são correntes nesta província, 1 peça de 8000 réis ou 8 Patacas e 1/3, os Cruzados novos de prata, na venda por 500 réis, e na compra por 480 réis, sendo elles e as peças raríssimas; e também correm as fracções de prata. O cobre e o bronze, as mesmas que em Portugal. São admitidas todas as moedas estrangeiras, com o valor de mercado, como qualquer outra mercadoria; mas nas transacções com os estrangeiros a moeda nominal é a Pataca com o valor de 800 réis fortes; e na Ilha da Boa-Vista existe a mesma moeda nominal, e mesmo nas transacções internas, nas quaes é a Pataca reputada por 800 réis fracos - Foi esta informação dada para o Governo pelo Governador Geral de Cabo Verde em 16 de Fevereiro de 1846.

O Decreto de 19 de Outubro de 1853, mandou que todas as moedas portuguezas fossem alli correntes, sendo igualmente admittidas todas as estrangeiras, que o foram em Portugal pelos Decretos de 1846 e 1847".

ÁLVARO LERENO, in Subsidios para a História da Moeda em Cabo Verde (1460-1940), fala das vicissitudes suportadas neste território por esses anos fora sem moeda própria e, geralmente, com escassez da que lhe vinha da Metrópole, de Angola e dos estrangeiros com quem negociava.

É com o Decreto nº18495 de 24.I.1930, que aparece a primeira moeda metálica desta Província Ultramarina.

Vejam agora a belíssima série numismata de 1930:
1 Escudo

1930
AlpacaAmoedação

50,000
50 centavos

1930
AlpacaAmoedação

1,000,000
20 centavos

1930
BronzeAmoedação

1,500,000
10 centavos

1930
BronzeAmoedação

1,500,000
5 centavos

1930
BronzeAmoedação

1,000,000

É pois esta última moeda que hoje vos apresento:
O MEIO TOSTÃO
A moeda com que não se conseguia comprar quase nada, sobretudo durante a II Grande Guerra e anos subsequentes (a inflação galopante desvalorizou a moeda). O meio-tostão tornou-se "cascalho". Devido a isto, a sabedoria popular tratou logo de engendrar duas frases paradigmáticas:

A de desprezo:
"Ca bali nen mei tiston frado"
Um indivíduo ou um objecto desprezível "não valeria nem um meio-tostão, e menos ainda se esta moeda estivesse furada!"
NB: não é que eu furei uma destas moedas para tê-la no bolso e poder gozar com os colegas que se metiam comigo, dizendo-lhes que a moeda era mais valiosa do que eles!!
A de menosprezo:
"Mei tiston ca ten troco !"
A uma provocação não se deva responder (dar o troco) sobretudo se vier de alguém que desconsideramos. De facto não havia troco para a moeda de menor valor facial, a de 5 centavos, o nosso meio tostão.

domingo, 9 de março de 2008

Kutum Ben Ben, dan papa pan dau leti...

Kutum Ben Ben, não se trata do filho do filho da árabe Kuttum, a minha quadragésima avó (e de Amélia também) filha do profeta Maomé!
Trata-se pois deste horrendo, grotesco e implacável bicharoco que nas ilhas setentrionais cabo-verdianas também responde por "Contchinha Dóna Dóna". Notem, meus caros, a sonoridade destes nomes, bem como a da lengalenga infantil "dam papa pan dau leti"(como defendo o bilinguismo, traduzo: "dá-me papa para que te dê leite") usada pelas nossas crianças quando tentam fazer sair o energúmeno bicho de dentro do funil de areia que constrói para: apanhar, maltratar, paralisar e devorar formigas que distraidamente ali tombarem. Esta sonoridade tem o ritmo onomatopaico (virtudes da língua cabo-verdiana) dos movimentos violentos e sincopados do animal ao bombardear as vítimas com areia, bem como da sua forma de locomoção em marcha-a-trás.

Pois é, este indivíduo é uma larva de um insecto da ordem dos Neurópteros que por ser uma autêntica fera para as formigas fez com que o adulto tivesse o nome científico de Myrmeleon, ou seja o de formiga-leão.

Vejam agora um vídeo profissional da National Geographic onde se pode observar o Kutum Ben Ben em acção:


Como poderão constatar no pequeno vídeo a seguir, o animal adora andar de marcha-a-trás quando retirado da toca:
Este comportamento é aproveitado (colocando a larva sobre as zonas erogéneas) pelas crianças com idades próximas da puberdade, para fazerem aparecer mais rapidamente os pelos púbicos, ou para verem crescer os seios em pouco tempo. Claro que isto não passa de um mito, embora alguns supostamente eruditos "bolam" a explicação de uma massagem dos vasos capilares pelas cócegas provocadas pelo insecto, fazendo com que haja mais sangue a trazer hormonas e nutrientes para essas zonas.

Agora, devem vocês estar a perguntar, porque será que eu estou a falar deste animal num blog de assuntos "não científicos e mais ligados à biografia do autor". É que sempre tive paixão por insectos (podem discernir uma pequena colecção de insectos numa caixa que ostento na foto ao lado) e um belo dia deparei com o nome de formiga-leão debaixo de uma foto do Kutum Ben Ben. Porém a legenda dizia ser uma larva, e fiquei curioso por saber qual dos insectos da minha colecção seria progenitor deste popular animalzinho.

Peguei então de uma caixa de cartão forte com tampa, adaptei um vidro na tampa para que se pudesse ver o interior da caixa e enchi a mesma até 2/3 com terra arenosa. Cacei bastantes Kutuns e pu-los sobre a terra da caixa. Trataram logo de se enfiar nessa terra e no dia seguinte lá estavam os célebres funis de caça. Alimentei-os com formigas e passado muito tempo (já estava quase a desistir) tive o prazer de ver esvoaçar na caixa, dois belíssimos exemplares de formiga-leão adultos! NB: tive sorte, pois a vida de uma larva antes da metamorfose (vim a saber depois) , é de cerca de dois anos.

Os adultos são uns bichinhos encantadores que só voam à noite e se alimentam de seiva e de néctar de flores! Quem diria? São conhecidos por "paga-candeia", pois, ao esvoaçarem à volta de lamparinas e "podogós" acabam por os apagar.

Eis então em rodapé, fotos deste magnífico Neuróptero:

domingo, 2 de março de 2008

As mais lindas mulheres da nossa árvore. I - as nascidas antes de mim

Imbuído do espírito de Março, o mês da Mulher, fui fazer uma vistoria pela árvore genealógica (que partilho na Internet com todos os que queiram nela e dela participar) e deparei com várias fotografias de lindíssimas mulheres. Olhando para as que eram mais velhas do que eu (nascidas a mais de 50 anos), notei que as fotos a branco e preto lhes conferia ainda mais beleza que a das mais jovens em fotografias digitais a cores. Talvez estivesse influenciado pelas fantásticas belezas a preto e branco que recentemente descobri no "Negra Beleza da Cor", mas não consigo resistir em publicar aqui as fotos das doze mais lindas mulheres entre as 36 beldades do antigamente, encontradas nos ficheiros que sustentam a árvore.

Ei-las então dispostas a seguir de forma aleatória:

*** Quem sou? ***** Quem sou? ***** Quem sou? ***** Quem sou? ***
***********************************************************************

***Quem sou? ***** Quem sou? ***** Quem sou? ***** Quem sou? ***
************************************************************************

*** Quem sou? ***** Quem sou? ***** Quem sou? ***** Quem sou? ***
***************************************************************************
Seis delas são REZENDE e quatro são SANTOS. Há três que são as duas coisas.

Saúdo pois a beleza destas mulheres, progenitoras e ascendentes de muitos de nós.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Como da genealogia, meus rins levaram a Roberto Carlos

"Família de macacos!" era a expressão que usava o brincalhão e saudoso tio e padrinho, Jorge Aguiar Lisboa Santos quando alguém na família tentava deslindar o grau de parentesco com outro membro da mesma. É que os pais de Jorge eram primos entre si em primeiro grau e dois dos respectivos irmãos (irmã do pai e irmão da mãe) se casaram também (igualmente primeiros primos obviamente).

Bem, como sou filho da irmã de Jorge, tenho naturalmente um avô e uma avó maternos que são primos, filhos de duas irmãs. Assim, os genes de um são reforçados por genes da mesma origem, do outro. Resultado: tenho preponderância de genes vindos dessas irmãs, logo do pai delas (e mãe também) meu trisavô António Rezende Costa

A ascendência Rezende deste meu trisavô chegou a Cabo Verde através do Brasil. Esta história será desenvolvida mais tarde neste blog. Por agora concentremo-nos no facto de serem dominantes as tendências genéticas dos Rezendes nas minhas células (e talvez, pelo mesmo raciocínio, as da família da minha trisavó também) .

Dado à notoriedade dos Rezendes no Brasil e às minhas lides genealógicas, recebi um belo dia por correio electrónico, uma contribuição de um primo brasileiro que alegava terem os Rezendes três características marcantes:
  • Tendência a sofrerem de pedras nos rins
  • Mania de se casarem entre primos
  • Começarem a ter fios e mechas de cabelo branco na adolescência
Não imaginam o quanto estas informações me caíram como uma bomba, pois:
  • acabava de sobreviver a uma terrível crise de dores diagnosticada como originada por uma pedra renal de um cm de diâmetro (lembrei-me de minha avó cuja urina era acompanhada de uma espécie de areia laranja)
  • ela, minha avó Candinha, era prima do marido, bem como o irmão que também era primo da mulher (esta irmã de meu avô)
  • meus agora grisalhos cabelos se estrearam com alguns fios brancos aos 18 anos e mechas laterais um pouco mais tarde.
A propósito de rins e de cabelos brancos, deparei recentemente com um curioso artigo que me deixou intrigado sobre o que a medicina chinesa pensa a este respeito:
"O cabelo também é uma estrutura gerada pelo rim, e pela sua observação podemos avaliar como está energeticamente o rim da pessoa. A queda ou branqueamento precoce é um sinal de desgaste acentuado da energia [renal] que pode ser tratado, desde que seja no início do processo."
Safados os genes dos Rezendes! E eis que um primo, também Rezende, me manda um "clip de vídeo" (que acrescento a esta "postagem") onde para além do seu valor nostálgico vem associado o Brasil, a música romântica, dois monumentos da cultura brasileira e a frase de Roberto Carlos no meio da canção: " ...você é mesmo essa mecha ... de branco nos meus cabelos..."

Deixo-vos então com este magnífico recorte visual e animado:



domingo, 3 de fevereiro de 2008

Caniche, cão de circo, cão carnavalesco

Enquanto não tiver o vagar de escrever sobre esta engraçada raça de cães, aqui vos deixo em pleno Domingo Gordo, o pândego retrato do Dan's o nosso caniche macho que adora posar para a fotografia.

Mas que nome tão estranho para um canídeo! Antes de vos dar a explicação, talvez seria melhor vos apresentar a foto dos dois caniches que deambulam em nossa casa: a Sheri e o Dan's

Como vêm, ela e ele têm cores que fazem lembrar o célebre licor irlandês lançado pela pela empresa Thomas Sheridan & Sons em 1994: o Sheridan's

Assim, achamos por bem, ilustrar tal cromática semelhança e solidário companheirismo de cachorros saídos duma mesma ninhada, com os nomes: Sheri e Dan's . A inteligência da raça tem sido bem explorada por nossa filha Mélanie Sofia, que já lhes ensinou uma boa dúzia de comandos verbais que eles obedecem sem pestanejar... ai deles!

domingo, 20 de janeiro de 2008

Os cones que podem nos levar a "conos"

Esbocei um sorriso ao ler no Liberal Online a seguinte notícia:

"As 50 variedades cabo-verdianas, dispersas pelas ilhas, classificam-se em duas variedades morfológicas – os conos pequenos, que terão chegado ao litoral do arquipélago há 16 milhões de anos, e os grandes, há 5 milhões"
Não pelo conteúdo da notícia mas pela palavra "conos". Naturalmente que foi uma gralha ortográfica do articulista que queria dizer cones e não "conos". Estes cones tratam-se de animais gastrópodes (moluscos com conchas) pertencentes à família dos conidae.

As ilhas da Boavista, Sal e Maio são riquíssimas em cones de rara beleza. Cabo Verde detém 10% das variedades existentes no mundo e algumas são raridades muito procuradas por coleccionadores, chegando a ser vendidas por preços impensáveis.

Como já sabem, uma das minhas paixões é, à semelhança de Jean Piaget, a malacologia [Se também gostam de Malacologia podem visitar o site Malakos]. Conheci em criança um coleccionador de conchas português, que vivia na Boavista. Só em 1983 é que tive o privilégio de visitar a colecção desse indivíduo. Além de pentes tinha bastantes porcelanas e maioritariamente cones. Nesse tempo já ele me dizia que muitas destas espécies não se encontravam mais nos mares da Boavista e lamentava não ter condições para manter a sua colecção.

Hoje, sei da pilhagem que se faz das nossas águas e por isso não quis falar muito deste assunto para não despertar mais curiosidade e apetência para o massacre dos conidae cabo-verdianos. Por isso sorri do facto de se evocar que temos 10% dos "conos" do planeta!

Desisti hoje, dia dos heróis nacionais, de bancar o herói ecológico para abertamente mostrar ao mundo, quão maravilhoso é o património conquífero das nossas águas e apelar a quem de direito que o valorize sem deixar que nos pilhem destas espécies raras.

Valorizar poderia passar pela organização de colecções que seriam expostas em museus do mar, onde pudessem ser contempladas pelos turistas e pelos estudantes de Cabo Verde. A Madeira fez isto e recolhe dividendos. A nossa colecção seria de longe mais valiosa: dêem uma olhada (clique no link) no artigo a respeito que vai publicado no blog "Espaço Cabo Verde". Reparem quantos belíssimos exemplares da colecção apresentada no link seguinte: aqui , são de Cabo Verde.

Se quiserem ver a linda colecção de conchas, que um colega da Universidade do Porto possui, cliquem aqui. Este Professor, de nome Franclim F. Ferreira, possui muitos gostos e paixões, como poderão constatar na sua página. Congratulo-me por ter muitas afinidades e gostos semelhantes ao deste colega (numismática, filatelia, bandeiras, viagens, etc)

domingo, 13 de janeiro de 2008

Já bebeu um KOPI LUWAK?



Eu estive quase. Um belo dia fui tomar um bom expresso num café-quiosque especializado em cafés do mundo, sito no piso subterrâneo do centro comercial do Campo Pequeno em Lisboa. Pedi o melhor que tinham e o balconista me informou que tinham o melhor café do mundo, mas que acabava de se esgotar o último lote. Ao perguntar o nome desse café, ele me elucidou que se tratava do Kopi Luwak, um café cujos grãos são recolhidos das fezes de um animal da Indonésia, o Luwak. Surpreso, fiz-lhe bastantes perguntas e anotei cuidadosamente o nome de tal exótica iguaria.

Mais tarde, fiz a minha pesquisa na Internet e encontrei coisas extraordinárias e curiosas a respeito do citado animal (a Civeta Asiática das Palmeiras, carnívoro parecido com os gatos, cujo nome científico é também estranho: paradoxurus hermaphroditus), do processo de obtenção, do preço astronómico (25 contos cv o quilo) e dos processos químicos que os grãos sofrem de forma muito natural.

Para conhecer melhor a actuação das enzimas e das reacções envolvidas na obtenção deste café e do seu gosto extraordinário, vá ao artigo sobre "Enzimas, metabolismo e ... gastronomia", do blog CVquímica.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Como é deliciosa a Delícia da Garda

Após a Delícia de Ananás eis que Garda nos apresenta a receita da simples Delícia. Esta é uma receita muito antiga que lhe foi passada pela sogra e que Garda deu o seu habitual toque de mestre

Delícia

Ingredientes

400g de açúcar

400g de manteiga
4 ovos
500g de farinha
1 pacote e meio de baking powder
coco ralado, q.b.
1 chávena de leite de coco
creme de Custard

Batem-se muito bem a manteiga com o açúcar, juntam-se as gemas, o leite de coco, a farinha, o baking powder e por último as quatro claras em castelo. Vai ao forno em forma untada de manteiga e polvilhada de farinha.

Depois de assado, corta-se o bolo, recheia-se e cobre-se com um creme leve de Custard (fazê-lo ligeiramente doce). Em seguida polvilha-se o bolo com coco acabado de ralar (coco fresco e não seco).

domingo, 30 de dezembro de 2007

A resposta de um cinófilo

No artigo anterior, mencionei José Eduardo Cunha como meu melhor amigo de infância, mas também de adolescência. Eis que o mesmo, ao ler esse artigo, fez um interessante comentário, recheado de testemunhos de fina sensibilidade, terminando com um autêntico "plaidoyer" sobre a maldade de alguns humanos em relação aos cães. É com imenso gosto que transcrevo a seguir a missiva que Zé Eduardo me dirigiu:

Caro Jorge


Apenas para fazer uma pequena correcção. O nosso cão, porventura irmão, primo, tio, "Eu sei lá!" do teu Boby (de que me lembro bem), chamava-se Cachito (lê-se Katxitu), título da famosa canção do Nat King Cole CACHITO MIO, na moda nos anos 60. O nome, sempre gostamos lá em casa de alimentar esta versão, foi escolhido pelo próprio, quando um dia, ouvindo o Nat cantá-la, desatou a uivar. A verdade é que, por associação ou não, muito mais tarde o Cachito continuava a uivar sempre que ouvia a famosa canção que lhe deu o nome.

Foi meu companheiro de infância, e parte da juventude, e morreu de velho. Terá vivido entre 10 a 12 anos, não sei precisar. Confirmo que foi a tua avó que o ofereceu, ao meu Pai, ou à minha Tia Leonor, e não às minhas irmãs, que na altura ainda não tinham nascido. O Cachito foi para nossa casa em 1962 ou 1963, ainda no Bêco da Pracinha não muito longe da tua casa, e do cinema, que, naquela altura, era uma ‘República’ onde moravam o meu Pai, os meus Tios e Tia, e os Primos destes.

Tinha eu 5 ou 6 anos, ele era um cãozinho quase acabado de nascer quando para lá foi, e ainda bebia leite no nosso colo. Na verdade nós saímos dessa casa em 1964 quando o meu Pai se casou, para a casa na confluência das então Rua Sá da Bandeira, Rua da República, e a Rua 5 Outubro (a nossa rua). A minha primeira irmã só nasceria em 1965, já o Cachito vivia connosco há já algum tempo. Como disse atrás, morreu de velho e doente, sofrendo muito, simplesmente porque para nós era inconcebível mandar matá-lo. Eu, por mero acaso, não estava em casa quando aconteceu. Encontrava-me no Serrado/Órgãos com o meu amigo Rui Bastos/"Hometa" em casa do Avô deste, o conhecido Sr. Bastos, produtor de ananzes, a passar uma semana. De regresso deram-me a notícia da morte do Cachito, mas nunca, até hoje, me disseram aonde o tinham enterrado. Chorei muito aquela perda. Lembro-me, como se fosse hoje, de muitas peripécias que passei, e passamos, com ele. Ele, como tudo o que me tocou, e como tudo o que amei, faz parte da minha vida, e ocupa um lugar central nela. Nunca mais tive outro cão. Nem penso vir a ter. O Cachito não foi apenas um cão. Mas um dos meus melhores e mais fiéis amigos. Ele é insubstituível. Não sei quantos cães da tua avó terão tido vida tão longa e tão próspera, terão tido tanta importância na vida de uma família, ao ponto de ter feito parte integrante dela, e terá sido tão conhecido na Praia como o foi então o Cachito.

Fico então à espera que fales mais da "Raça" do teu Boby e do nosso Cachito, e já agora, caso não seja pedir demais, vê lá se descobres, pelo menos, o nome dos seus progenitores. É, também, destas memórias de que somos feitos. Obrigado por teres partilhado esta recordação. Concluo, respondendo à tua pergunta. Sou cinéfilo, e sou cinófilo. De cinema falaremos noutra ocasião. O Cinófilo sofre todos os dias quando tropeça num cão abandonado. E por aqui há muitos. Há dois períodos terríveis para esta barbárie que é abandonar um cão. Um é o período das férias, o outro é este precisamente em que te escrevo, fim/início do ano. A táctica canalha desta gente, é atravessar a Ponte 25 Abril e abandoná-los à sua sorte na margem sul. Então é vê-los por aí desesperados à procura do caminho de casa, aflitos e perdidos à procura dos donos, porque, estou certo disso, abandono é algo que o elevadíssimo sentido de fidelidade dos cães não entende nem reconhece. Infelizmente, nem todos os cães merecem os donos que têm. A mim ofende-me vê-los por aí perdidos, tristes e indefesos. Acredita, que poucos olhares, como os dos cães, são tão ricos e expressivos. Basta olhar um cão nos olhos para se saber se é feliz e se está bem tratado. Obrigado pela oportunidade que me dás de começar bem este ano, falando de algo que me é particularmente caro. Fi-lo in memoriam do meu amigo CACHITO.

Bom Ano

Zé Cunha



P.S.- A propósito de cães, dos Boby's e dos Cachito's deste mundo, faço-te aqui esta recomendação. Lê o livro "TIMBUKTU", do Paul Auster, Edição Asa.


Se já o leste, sabes do que falo. Se não, então lê, porque sei que vais gostar muito. É uma espécie de "Evangelho" para Cinófilos. Um dos livros mais belos que já li até hoje, e, definitivamente, um dos livros da minha vida.

Cá vai a letra. Sublinhados meus.

Cachito Mio

Nat King Cole


A tu lado yo no se lo que es tristeza
y las horas se me pasan sin sentir
tu me miras y yo me pierdo la cabeza
y lo unico que puedo repetir.




Lalalalalalalala
Lalalalalalalala
Cachito, cachito, cachito mio
pedazo de cielo que Dios me dio
te miro y te miro y al fin bendigo

bendigo la suerte de ser tu amor.

Me preguntan que porque eres mi cachito
y yo siento muy bonito al responder
porque eres de mi vida un pedacito
a que quiero como a nadie de querer.

Cachito, cachito, cachito mio
pedazo de cielo que Dios me dio
te miro y te miro y al fin bendigo
bendigo la suerte de ser tu amor.

Cachito, cachito, cachito mio
pedazo de cielo que Dios me dio
te miro y te miro y al fin bendigo
bendigo la suerte de ser tu amor.

Cachito (cachito)
cachito mio (cachito)
ay pequeñito
de mama y de papa.

Cachito (cachito)
cachito mio (cachito)
ay amorcito
de mama y de papa.

Cachito, cachito, cachito mio
pedazo de cielo que Dios me dio
te miro y te miro y al fin bendigo
bendigo la suerte de ser tu amor.

Lalalalalalalala
Lalalalalalalala

domingo, 23 de dezembro de 2007

Serei um cinéfilo ou um cinófilo?

Na realidade nem uma coisa nem outra, ou melhor um pouco das duas coisas!

Embora tivesse nascido ao lado do cinema da Praia e por meu pai ter na altura dois lugares cativos (por ser seu técnico de serviço) em todas as sessões, podendo eu assistir a dezenas de filmes (sem muitas vezes ter a idade requerida), não é de cinema que vos quero aqui hoje falar. Sim, não é do cinéfilo em mim, mas sim do cinófilo que julgo um pouco ser. Que significa este "palavrão" ? Nada mais nada menos do que amigo dos cães.

Desde os seis anos que me acostumei a conviver com cães em casa e tinha um pequeno cão branco e felpudo que se chamava Boby. Este tinha-me sido oferecido pela minha avó paterna, Nha Quinha, que em sua casa na "rua do hospital" fazia a criação destas preciosidades que desconfio muito serem aparentados dos caniches (falarei destes num próximo artigo). Meu Boby era da mesma ninhada de um outro com nariz rosado e que fora oferecido às filhas do Sr. Flávio Cunha, técnico dos CTT, colega de meu pai e progenitor do meu melhor amigo de infância, José Eduardo Cunha.

Boby era muito inteligente e brincávamos às escondidas e a outras diabruras durante 11 anos. Em 1974, este animal que tinha o hábito de sozinho ir e vir à casa de vovó Quinha ver os outros cães (e certamente cadelas) irmãos mais novos, desapareceu, pura e simplesmente. Houve quem sugerisse que o infeliz tivesse sido capturado por um tal Sr. Maurício, dono do restaurante "a Floresta" então sito nas traseiras do local onde veio a ser construido o Hotel Marisol. Maurício ficou famoso por servir uns excelentes guisados de cabrito... até que foram encontradas peles de cachorros nas redondezas do quintal do restaurante que explorava. Pobre Boby!

domingo, 16 de dezembro de 2007

Sou um apreciador de provérbios, máximas e pensamentos.

Nesta quadra festiva em que deixamos para trás o ano de 2007 e iniciamos um novo ano, não resisto a vos deixar com o clip seguinte, enviado por um dileto amigo.


domingo, 25 de novembro de 2007

O caramelizado bolo de ananás feito por Garda

Eis a receita deste maravilhoso bolo de ananás que Garda tão bem sabe fazer.

Delícia de Ananás

Ingredientes para a massa

225g de açúcar

200g de manteiga
6 ovos
265g de farinha

2 colheres de chá de baking powder
1 lata de ananás (separar metade da calda e duas rodelas de ananás para incorporar na massa)


Ingredientes para preparar o leito da forma rectangular (24x32cm)

130g de manteiga (manteiga mesmo, não um substituto)
230g de açúcar

Misture estes ingredientes e barre a forma rectangular com a mistura. O fundo da forma deve levar uma camada dessa massa. Sobre este leito açucarado, disponha a seu critério, as rodelas de ananás. Se desejar, pode colocar cerejas nos buracos centrais das rodelas de ananás e passas à volta das citadas rodelas (poderá fazer isso também, depois do bolo estar assado).

Preparação da massa:

Bata a manteiga e o açúcar até se obter um creme. Junte as gemas, uma a uma, e continue a bater. Adicione a farinha e o baking powder. Incorpore a metade da calda na massa bem como as duas rodelas (previamente trituradas). Finalmente junte as claras batidas em castelo. Por fim, verse a massa do bolo sobre o leito preparado na forma e leve ao forno. Deixe assar até obter o tom caramelizado característico.


domingo, 18 de novembro de 2007

Saudosas campanhas de florestação!

Que fazem estes jovens no deserto?

Estas são imagens das primeiras campanhas de florestação de Cabo Verde. A cena se passa no então "deserto" do Monte Vaca, no topo da Achada de São Filipe em Santiago. Nesse dia soalheiro de 14 de Agosto de 1978, véspera de feriado religioso (mas naquele tempo abolido como tal). O jovem de "sumbia" sou eu! Não acreditam? Vejam então:
Sou o primeiro da esquerda, seguido de Hermínio Silva, Carlinhos "Guardafui", Amadeu Silva ....

E fazíamos esse serviço cívico de boa vontade e com alegria, inspirados pela força, luz e guia que norteavam os nossos destinos.

Quntos éramos nós nesse dia? MUITOS. Eis a seguir uma foto de grupo tirada junto à bomba de água movida pela energia de um painel solar experimental que nesse local fora instalado.

domingo, 11 de novembro de 2007

Alex e Mimi os génios US e CV dos papagaios cinzentos

O papagaio cinzento de cauda vermelha (Psittacus erithacus), conhecido entre nós por papagaio de São Tomé, é considerado como a ave mais inteligente do Mundo.

Experiências várias ligadas às ciências comportamentais, à etologia e até à psicologia têm vindo a ser feitas com esta extraordinária espécie.

O célebre papagaio ALEX, acrónimo de Avian Learning Experiment, conseguia, segundo o blog "thesoundofsilence", "identificar 50 objectos diferentes, 7 cores, 5 formas, quantidades até 6, categorizar mais de 100 itens diferentes e conhecia conceitos como maior/menor, igual/diferente, etc. Além de que era uma celebridade em programas de televisão, onde até dizia piadas breves, como “take it easy”..." O pobre animal faleceu recentemente e houve uma onda inimaginável de consternação (se se introduzir no Google as palavras Alex + Parrot aparecem quase 6 milhões de entradas).

Bem, embora eu não tenha (ainda) um destes papagaios em casa, conheci um durante a minha infância. Chamava-se MIMI e vivia empoleirado num bar da cidade da Praia, pertencente ao Sr. António Leão e à Dona Elvira (já falecidos). Mimi "falava pelos cotovelos" e todos se divertiam com as sua tiradas. Um belo dia, o Sr. Vital Moeda passava pela porta do botequim, e Dona Elvira, solícita, o manda entrar e "apresenta-lhe" a Mimi. Esta então resolve não abrir o bico e por mais que Elvira a estimulasse teimava em se manter em silêncio, colocando a dona numa posição embaraçada pois tanto elogiara os dotes do animal. Logo que Vital se foi embora, Elvira volta-se para Mimi e ralha: "abó Mimi, si qui bu ta pon na burgonha!?" Mimi abre então o bico e com ar vaidoso profere: "min ca pinton!!"

Estes animais são realmente susceptíveis, e requerem muito mimo. Podem encontrar vários artigos na Internet que dão dicas de como cuidar deles.

Deixo-vos agora com um fantástico clip de vídeo ilustrativo da capacidade destes animais em imitar sons e palavras ... todas no seu devido contexto:


Então, Einstein, o papagaio em questão...Parla? ou Fala?

domingo, 4 de novembro de 2007

Como se "Pensou Portugal Novo"

Em 1971, Marcelo Caetano sabia que os dias do império colonial português estavam na berlinda. Para virar o jogo, criou uma nova ideologia que deveria "Pensar Portugal Novo", ou seja haver uma espécie de confederação portuguesa onde cada estado seria autónomo, incluindo o Portugal europeu que passar-se-ia a designar de Lusitânia.

Para melhor impingir estas novas ideias, foi criada uma instituição denominada "Círculo de Estudos Ultramarinos" que tinha entre outros o objectivo de promover cursos de iniciação à política, nomeadamente à volta do tal novo figurino para Portugal.

Foi assim, que os melhores alunos dos liceus Gil Eanes e Adriano Moreira, foram seleccionados para frequentar estes cursos. O primeiro foi na Praia em 1972 e o segundo em Mindelo nas férias da Páscoa de 1973. Integrei este segundo curso, juntamente com mais 29 colegas ( ver neste artigo, as fotos tiradas no Paúl, aquando de uma visita de estudos inserida no programa do curso - faça um clique nelas para vê-las em ponto grande).

Os dez alunos que "melhor assimilaram a ideia do Portugal Novo", ou seja, os melhores classificados no curso, ganharam uma viagem de estudos de um mês à "Lusitânia" durante as férias de verão de 1973. Assim, eu e mais nove colegas cabo-verdianos, entre os quais João Baptista Galvão, Sidónio Monteiro, Carlos Burgo e Idalina Monteiro, estivemos 30 dias a passear por todas as capitais distritais do Portugal continental.

NB: o livro de fim de curso, com poemas de uns dedicados e concernentes a outros, foi entregue a cada um de nós que, de imediato, fez recolher os autógrafos dos colegas, apostos em suas respectivas páginas. Podem ver essas páginas recentemente publicadas num fotolog regido por uma irmã de um dos participantes. Eis o link da 1ª de minhas páginas nesse fotolog (clique no link)