domingo, 29 de junho de 2008

O Badio entre o Betacismo e o Metaplasmo

Vou falar-vos da versão mais lógica e menos conhecida da origem da palavra "badiu" , que tem vários significados mas que hoje identifica o habitante da ilha de Santiago de Cabo Verde.

Mas,... quem sou eu para resolver falar de assuntos de linguística, se a minha formação é da área das chamadas ciências exactas?

Em primeiro lugar, neste blog, os artigos têm sempre o tal cunho pessoal e não devem ser considerados artigos científicos. Em segundo lugar, eu sempre me desenvencilhei bem em matemática (a disciplina em que melhores notas apanhava) o que me estimulava as células cinzentas da região cerebral também responsável pelos dotes linguísticos. É assim que apanhei o gosto pelo estudo da origem das palavras e a nossa língua cabo-verdiana me trouxe e traz um campo fértil e "gostoso" de pesquisa (deveras transdisciplinar) nesse domínio.

A rigor, o "badiu" designa o camponês do interior da ilha de Santiago. Tanto mais que as expressões (antigas) "badiu di fora" (de fora da cidade), "badiu burro" (retratando o carácter campónio do iletrado indivíduo) e "badiu di pé ratchado" (indicando as gretas das ourelas dos descalços pés, próprias do contacto desses mesmos pés, com a lama pedregosa dos campos cultivados) reforçam a natureza campesina do mesmo. Hoje estas expressões não têm cabimento.

A vida difícil acabou por levar o "Badiu" a migrar para outras ilhas (sec. XIX e seguintes) onde os habitantes os identificavam como oriundos da ilha de Santiago, generalizando o termo a todos os habitantes dessa ilha, incluindo os da cidade da Praia. Estes, até aos anos setenta do século XX, sabiam que o termo "badiu" lhes servia para designar os que provinham do interior de Santiago.

Vejamos agora a explicação mais conhecida da origem do termo "badiu" que em língua portuguesa se diz "badio". NB: usarei doravante o termo português badio e sem aspas.

Premissa nº1: muitas palavras do cabo-verdiano com sílabas começadas pela letra b, provieram de palavras do português com sílabas começadas pela letra v : baca, bento, cabalo, balenti, bedjo, nobo, nabadja, nabega, coba, bruga, besgu, etc. O fenómeno linguístico em causa é conhecido por betacismo

Premissa nº2: muitos escravos conseguiam fugir e deambulavam pelas montanhas e vales recônditos de Santiago. Eram chamados de "negros fujões".

Construção da explicação da origem da palavra: Esses negros fujões passavam privações e se organizavam para vir assaltar as casas na cidade e roubar comida. "Lá vêm aqueles vadios, desgraçados, fogo neles!" exclamavam as autoridades portuguesas em face dessas ocorrências. E a palavra vadio foi rapidamente passada pelos cabo-verdianos, para badio.

Esta é a versão conhecida e que, a meu ver, "mete água" por todos os lados:
  • O betacismo não é tão presente assim, que possa ser generalizado. Há muitos mais casos de conservação do v na passagem do português para o cabo-verdiano, do que à primeira vista parece. Aliás, se vadio desse badio, então porque não diríamos badiachi em vez vadiachi, ou "forti bâdia, nha guenti!" em vez de "forti vâdia, nha guenti!"
  • A maioria dos termos em b de que falamos, transitou já com o b do linguarejar dos colonos portugueses de origem nortenha, que diziam (e dizem): binho, bamos, bentania, biola, etc. E não vejo nortenhos dizer "os badios são aqueles que andam a badear por aí"
  • Mal vejo os camponeses cabo-verdianos a interiorizar um termo que era depreciativo e até pejorativo.
  • Como poderiam vadiar os camponeses, se por o serem nestas ilhas, se tornavam forçosamente sedentários e não nómadas?
  • A maior parte dos defensores do badio proveniente de vadio, não são Badios! (infiram vocês o resto)
Agora vou contar-vos a cena que na minha juventude presenciei e que desde então me convenceu do quão verossímil seria uma outra explicação.

Assisti a um momento cultural no então Instituto Cabo-verdiano do Livro, nos finais da década de setenta (do século passado). Ali se encontravam alguns intelectuais cabo-verdianos, entre os quais Felix Monteiro. Este, no decorrer de um debate, apresentou a seguinte "tese" sobre uma outra origem do vocábulo badio:

Badio vem de baldio, tendo havido a queda da letra l.

A argumentação era a de que os camponeses (estamos já no século XVIII) que forneciam frescos à cidade, cultivavam-nos nos arrabaldes da mesma ou seja nos terrenos baldios, também designados apenas por baldios.

Frases como: "vamos à praça comprar as hortaliças dos baldios (terrenos)" eram interpretadas pelos demais como "...hortaliças dos Baldios (grupo de pessoas)

A transformação linguística subjacente (supressão de fonemas) é conhecida por Metaplasmo e no caso vertente, onde o som que desaparece está no meio da palavra é uma síncope.

Baldio passa a Baldio (com o a mudo), a Badio, e a Badiu

Esta é a versão que mais faz sentido, pois:
  • O significado de camponês de "fora" se coaduna com o do habitante dos baldios.
  • A transformação por síncope é mais natural do que a por betacismo
  • A conotação não é sentida pelos próprios como desprestigiante (logo facilmente adoptada pelos mesmos).
  • Identificar alguém como baldio (dos arrabaldes) é mais evidente (traje e função na sociedade) do que identificá-lo como vadio (negro fujão).
  • Os terrenos baldios estavam "na moda" no tempo do Marquês de Pombal e foram ao longo dos anos em Portugal, sempre objecto de política agrária, polémica e referências.
  • Os habitantes da cidade da Praia não se consideravam Badios!
Vou então deixar-vos reflectir sobre:

O absurdo do Badio porvir de Vadio
&
A lógica e o fazer sentido, do Badio porvir de Baldio

Só encontrei uma referência na Internet que fale da origem baldio; mas ela é em língua alemã. Ei-la aqui

domingo, 22 de junho de 2008

Genealogistas cabo-verdianos da actualidade


Meus caros, após uma semana, cá estou eu para me classificar como um "amante da Genealogia Social". Na realidade, esta paixão é um hobby que desenvolvo, mais na óptica do coleccionador do que na de um académico. Sinto-me congratulado quando descubro um novo parente ou, melhor ainda, quando um parente me descobre e envia dados e fotos para colocar na árvore www.barrosbrito.com. Aproveito também para nesse site ser o mais didáctico possível, colocando factos históricos e eventos dignos de nota, dos indivíduos que nele figuram. A colaboração de todos é bem-vinda.

Mas, a Genealogia académica cabo-verdiana, conta com um meticuloso e sofisticado investigador, o Dr. João Manuel Ferro Nobre de Oliveira, o autor de: A Imprensa Cabo-verdiana (1820-1975) (Edição da Fundação Macau - Direcção dos serviços de Educação e Juventude; Setembro de 1998, por ocasião da visita oficial a Cabo Verde do Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira. ISBN 972-658-017-X). Este historiador, está há bastantes anos a trabalhar na História das Famílias Cabo-verdianas, obra que dentro de um a dois anos dará à estampa e que todos nós ansiamos perdidamente. Oliveira tem tudo devidamente certificado e apoiado em fontes fidedignas.

Porém, muito mais social do que eu, está o Dr. Luís António dos Santos Júnior. Este grande genealogista, não só desenvolve na Internet, uma árvore genealógica (Hesperitanas) de todos os cabo-verdianos que tenham conexões de parentesco com parentes dele, Luís (mesmo que o não sejam dele parentes; ver a nota introdutória), mas também criou um Fórum de Discussão de Genealogia Hesperitana. Neste fórum, podem-se conjugar esforços e fazer especulações sobre eventuais laços de parentesco entre personagens do antigamente e de agora.

A ilha do Fogo tem sido o exemplo de cruzamentos consanguíneos e de famílias que se misturam e remisturam, para preservar a terra, para preservar o nome, para preservar "a raça", para ... Bem, o mais complicado é que os nomes completos se repetem na linhagem vertical (isto até é fácil de deslindar) mas também em linhagens paralelas de primos. O Dr. Adalberto António José Barbosa, desenvolveu um extraordinário trabalho genealógico publicado na Internet, em que poderemos navegar através das famílias: Barbosa, Henriques, Monteiro e Vasconcelos. Adalberto conseguiu trazer à luz, estes intrincados laços de parentesco, e vale a pena a consulta.

Há outras árvores cabo-verdianas na Internet, mas as duas que mencionei são-me bastante úteis, tanto mais que os autores são meus parentes.

Fica aqui o meu reconhecimento profundo a estes três genealogistas cabo-verdianos, pelo trabalho extraordinário que têm feito em prol da história das famílias destes dez grãozinhos de terra!


domingo, 15 de junho de 2008

Cinco caminhos genealógicos

Porque me interesso pela Genealogia? Além de mim, muita gente gostaria de o saber! Há quem até torne mais lata a pergunta: "porque é que pessoas se interessam pela Genealogia?"

Antes de responder, pus-me a observar os dados que tinha e tornou-se-me óbvio que há várias razões para que haja interesse nesse ramo do saber. Mais, as motivações e os objectivos são tão diversos que podemos mesmo agrupá-los em categorias diferentes e, curioso, até disjuntas: há quem faça genealogia por motivos diametralmente opostos e há quem o faça por razões que nada têm a ver umas com as outras (nem convergentes, nem divergentes)

Deste modo, acabei ao longo destes anos, por classificar em cinco tipos, as motivações e as pessoas atrás de um empreendimento genealógico. A classificação que se segue é puramente subjectiva e é o modo como "vejo a questão":
  1. Genealogia académica - Quando a Genealogia é encarada como uma ciência, ela é exercida de maneira assaz rigorosa, corroborada por fontes seguras e comprovadas e observando as regras da investigação científica próprias das ciências humanas. A Universidade do Minho, por exemplo, tem um ambicioso programa de investigação genealógica em curso. Pelo mundo fora, assistem-se a várias teses de doutoramento em Genealogia. Também há investigadores que fazem estudos genealógicos por moto próprio, com vista à publicação de obras e\ou artigos.
  2. Genealogia elitista - Independentemente do natural gosto pelo conhecimento dos seus antepassados, muitos fazem genealogia para que se sintam distintos dos demais. Também os há que por razões de "sangue azul" e políticas (monárquicos) associam-se a um outro ramo do saber (a Heráldica) para traçar ramos genealógicos aristocráticos e plenos de brasões. Porém, a Heráldica e a Genealogia de famílias reais, são componentes essenciais dos estudos académicos já mencionados.
  3. Genealogia religiosa - Muitas religiões se interessam pela Genealogia, principalmente as cristãs. E isto por razões diversas. No entanto a dos Mormons é a que mais me impressiona: estes constroem as árvores genealógicas do mundo inteiro, por acharem ser de sua responsabilidade a realização de "ordenanças de salvação" dos que morreram, com vista à redenção de suas almas (portadores do sacerdócio, realizam estas ordenanças em pessoas vivas da congregação, em favor das que tenham falecido sem as terem feito, a partir de dados provenientes da árvore pesquisada e estas têm a oportunidade de se redimir)
  4. Genealogia social - Chamo de genealogia social aquela a que muitos se dedicam por curiosidade. Saber que "fulano é meu parente" ou poder dizer que "... sou descendente directo do Marquês de Pombal!" ou mesmo o de honrar os antepassados, procurando conhecê-los. Ter um gráfico (árvore genealógica) emoldurado ou arquivado, da sua família ascendente é para muitos assaz importante. Muitas vezes se entra em clubes e associações de genealogia, ou se preenchem "softwares" de genealogia. Torna-se uma espécie de hobby
  5. Genealogia utilitária - Trata-se da prestação de serviços e do desenvolvimento comercial da Genealogia. Como se sabe, muita gente precisa de estudos genealógicos para provar a sua ascendência (processos de nacionalidade) ou para inserir em processos de herança. Outros gostariam de conhecer "avós perdidos" ou de saber de doenças hereditárias (incidência de câncer ou de diabetes) na família. Outros ainda queriam ter um estudo genealógico sobre a história de suas famílias e não sabendo fazê-lo, encomendam-no. Assim, encontramos genealogistas profissionais que vendem os seus serviços. A indústria de programas informáticos tem um sector genealogia, que naturalmente requer profissionais atentos.
Não me vou classificar agora, deixando aos meus leitores a oportunidade de me catalogar entre os grupos que mencionei. Voltarei na próxima semana para melhor ilustrar este assunto.

Recomendo agora a leitura dum sublime texto de Pedro Wilson Carrano Albuquerque, onde poderão conhecer as diversas utilidades da Genealogia e do interesse do seu estudo. Façam clique no link de Considerações sobre a Genealogia

domingo, 1 de junho de 2008

Baby Garda e baby Jorge comemoram o dia internacional da criança

Eis que regresso a Cabo Verde no dia internacional da criança, após uma ausência em férias, longe dos blogs e das TIC.

Peço porém desculpas aos meus leitores, porque não me foi possível publicar nos últimos Domingos qualquer artigo que fosse.

E para homenagear este dia da criança, preparei um diaporama da minha família nuclear com fotos de nossa infância. Ei-lo:

domingo, 4 de maio de 2008

Dia das mães cabo-verdianas, lindas mulheres que elas são!

Neste primeiro Domingo de Maio, comemora-se em Cabo Verde (e em Portugal também) o dia das mães! Contudo, há muita gente (sobretudo Nazarena) que segue a tradição americana, considerando que o segundo Domingo de Maio é que é o dia das mães. Quando era criança, o dia das mães era a 8 de Dezembro, depois virou o último Domingo de Maio, para se fixar no primeiro. Com tanta confusão fui indagar e descobri não só a história desta comemoração, como também que as datas da mesma variam de país para país.

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Com muito prazer, vou então homenagear as mães cabo-verdianas e em particular a minha mãe. Esta chama-se Esther Aguiar Lisboa da Costa Santos, carinhosamente chamada na família, de: vovó Teti. Nasceu a 8 de Outubro de 1924, fez os estudos liceais no Liceu Gil Eanes no Mindelo e em Janeiro de 1949 entrou para os Correios Telégrafos e Telefones (CTT) como Aspirante. Trabalhou sempre no Sector Postal e foi evoluindo na carreira, por concursos, até se aposentar em Fevereiro de 1975 como 1º Oficial. Nos CTT, os funcionários seguiam a Escola dos Correios, tinham que estudar muito para obterem os diplomas que lhes permitiam concorrer a categorias mais elevadas. Muitas vezes, Esther justifica a minha propensão pelos estudos, com uma teoria de que "ouvira dizer que os bebés assimilavam os hábitos das mães enquanto estas estivessem grávidas, estando ela a estudar arduamente para os exames dos CTT durante a gravidez do seu Jorginho".

O que é certo, é que ter uma mãe na secção postal dos CTT, dava muito jeito para um amante da filatelia. Ela trazia-me inúmeros selos usados, colados nos invólucros de encomendas e vales postais. Ensinou-me a mergulhar estes retalhos de papel (com os selos colados), em água para amolecer a cola; trazia-me papel mata-borrão para os secar ou para fazer compressas sobre os selos colados em postais (assim a escrita a tinta, dos postais, não era destruída). Não me esqueço da explicação que me dera sobre os selos "porteados" (ver ao lado a página do meu álbum de selos CV, com a série de 1952). Estes selos, são os que se usam para "multar" as cartas que chegavam sem selo; com o dobro da taxa normal, estes eram uma espécie de "chamadas pagas no destino", se o destinatário quisesse a carta pagava a taxa e os selos porteados eram colocados sobre a correspondência que de seguida ser-lhe-ia entregue.
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Outra particularidade interessante de Esther é o seu gosto pela escrita, pelo conto, tradições orais e passatempos. Chegou a ser uma importante colaboradora do "Almanaque Bertrand". Este almanaque foi publicado de 1899 a 1969. Vejam na figura à direita, duas páginas da edição de 1931 deste almanaque. O almanaque era, entre outros, recheado de passatempos, charadas matemáticas e adivinhas. Cheguei de encontrar vários passatempos do tipo "Salto de Cavalos", "Hieróglifos Comprimidos" e Palavras Cruzadas da autoria da minha mãe, nos volumes dos anos quarenta. Apanhei o gosto e aos 12 anos lá tentava eu fabricar também estes passatempos que comecei a dactilografar no que pretendia vir a ser um "Almanaque Brito".

Vejamos então "Vovó Téti" ao longo da vida




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E agora, retomemos algumas das beldades da minha árvore genealógica e constatemos que a beleza também está nos genes. A escolha recaiu em 15 musas, que constituem 5 grupos de avó-mãe-filha. Cabe aos digníssimos leitores e leitoras, deslindar as cinco sequências.
  • Se fizer clique na foto - irá para a página da árvore e saberá quem é.
  • Se fizer clique na pergunta "minha mãe é?" - saberá qual a foto da mãe respectiva (as avós podem não as ter disponíveis)

minha mãe é ? ... minha mãe é ?... minha mãe é ?... minha mãe é ?... a minha mãe é ?


minha mãe é ? ... minha mãe é ?... minha mãe é ?... minha mãe é ?... minha mãe é ?


minha mãe é ? ... minha mãe é ?... minha mãe é ?... minha mãe é ?... minha mãe é ?

domingo, 27 de abril de 2008

Rua "Sala Bandera": a sala de visitas desta Praya de 30 citadinos lustros

Antes de mais, (além de D. Pedro V que se casara neste dia) queria dar os parabéns a três heróis nascidos a 29 de Abril:
  • À Cidade da Praia, pela sua tenacidade e vigor
  • À falecida cidadã da Praia, Elsa Azevedo pela coragem e fé
  • Ao Comandante Pedro Pires, nosso Presidente da República e Combatente da Pátria
Posto isto, estamos todos carecas de saber que no dia 29 de Abril se comemoram os 30 lustros (150 anos) desta cidade ainda com pouco lustro. Por isso não vou armar-me em carapau de corrida, comentando os altos e baixos desta minha mui querida cidade, tanto mais que a razão de ter engordado, não tem nada a ver com a dos que a governam, ou com a dos que pretendem fazê-lo. Vou mas é evocar algumas recordações:

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Recordo-me sim, de ter brincado numa praça Alexandre Albuquerque cheia de flores, húmidos canteiros verdes com minhocas e sapos, vendedeiras de doces de leite (Nha Laia e Nha Ida), guarda coxo e zarolho de vara em riste (Nhu Pedro), "musgueros" no coreto e crianças brincando à roda ou ao "soldado, cabo, furriel...", jovens indo e vindo a passear no passeio cimentado que dava para a rua principal da cidade (já vou falar dela) e outros que faziam a circunvolução da praça pelo passeio interior. Ás 20h em ponto, todos se punham em sentido com o hino nacional português que troava pelos altifalantes do Rádio-Club. Logo que os altifalantes se calavam, corria eu para casa jantar (ai de mim se não o fizesse!)

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Recordo-me sim, que quando comecei a fazer colecção de selos, tinha muito orgulho em mostrar o meu álbum favorito, o de Cabo Verde. Todas as vezes que o mostrava à minha mãe, esta (funcionária dos CTT) atardava-se na página que vos apresento ao lado, e apontava com ar triste, para os selos comemorativos do centésimo aniversário da elevação da Praia a cidade, contando que a degradação do estado de saúde de minha tia e madrinha Alice, era motivado por esta ter dado muito de si aquando das citadas comemorações. Alice era professora primária e estava envolvida na organização duma grande quermesse que teria lugar por ocasião desse centenário. Ficava altas horas pela noite dentro a recortar papéis de seda e de lustro, a fazer colagens, cartazes e outras coisas, sob uma luz fraca e tremida.

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Nesse tempo, antes da Independência, a rua principal da cidade era a Rua Sá da Bandeira. Rua do Banco Nacional Ultramarino, da Casa do Leão, da Farmácia Leão, do Cachito, da Adega do Leão, da Serbam, do Antoninho Mujota, das Galerias Praia, do "Pilorinho", da casa di Nhu Pipi, da Dona Celina, do Parque Automóvel, da casa di Nhu Bispo!

Lendo as crónicas de Carla Amante da Rosa e tendo visto o filme "A Ilha dos Escravos", não se poderia deixar de dar valor ao homem que num único dia, decretou a abolição da escravatura em Cabo Verde, fez subir Mindelo à categoria de vila e deu à Praia a dignidade de cidade: Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, o então Visconde de Sá da Bandeira.

Bem merecido o nome dessa rua principal, o de Sá da Bandeira. Porém, veio a Independência e os revolucionários combatentes da pátria, trataram logo de volatilizar todos os vestígios dos heróis portugueses e substituir os nomes das ruas, por outros nomes mais consentâneos com a Revolução e com a África. Assim, Sá da Bandeira teve de ceder seu nome a favor do de Amílcar Cabral e a rua foi promovida a Avenida!

Mais tarde, quando chegou a 2ª República, os novos governantes restituíram os nomes das ruas aos ilustres que durante décadas, tinham seus nomes nas placas toponímicas. Mas.... quem ousaria retirar o de Amílcar Cabral das placas da "Rua Sala Bandera", como ainda os mais velhos a chamam?

Assim, ficamos sem a justa homenagem a esse corajoso e digno estadista!

Por isso, proponho, que nesta comemoração dos 150 anos da cidade da Praia, se dê o nome de Sá da Bandeira a uma de suas ruas!

A rua que proponho, antigamente rua Brandão de Melo, fica próxima da zona onde escravos apanhavam água, a "Aguada da Praya" - local mais tarde conhecido por "quintal di burro" (ver gravura do lado esquerdo). Razões da proposta: a proximidade evocada do local que lembra a abolição da escravatura, a existência antiga dessa rua, o ser paralela à antiga Rua Sá da Bandeira e ao facto de poucos conhecerem seu nome actual. Vejam o GoogleMap à direita e o diaporama que se segue:


A Ilha dos Escravos e EU

Tive o privilégio de assistir a duas horas de exibição (após duas outras de contratempos com as máquinas e os leitores de DVD que teimavam em disfuncionar) de um excelente filme realizado por Francisco Manso, conhecido realizador português. Falo de "A Ilha dos Escravos". A sessão contou com a presença do actor Milton Gonçalves, o "Tesoura" da trama, que durante as interrupções, nos brindou com seu bom humor e sábias observações.

Este filme gerou bastante expectativas na comunidade cabo-verdiana e sua ante-estreia sobejamente anunciada na blogosfera. Diversas razões podem ser evocadas para justificar tais expectativas, mas eu pessoalmente ansiava por vê-lo, sempre com a vã esperança de poder assistir à eventual cena do julgamento dos insurrectos. Eis um estrato da sinopse:
O filme decorre em Cabo Verde (na ilha de Santiago), durante a primeira metade do século 19, com breves segmentos de extensão a Lisboa e Viena de Áustria e flashbacks, centrados na ilha de Santo Antão e em Salvador, na Baía, pelos fins do século 18.

O levantamento de tropas, na Cidade da Praia, instigado por oficiais desterrados para o arquipélago, em consequência da derrota dos partidários do infante D. Miguel, na guerra civil portuguesa, é o núcleo histórico do filme. Os rebeldes, contrariando as suas próprias convicções anti-liberais, tentaram aliciar para o seu campo a população escrava, à falta de outros meios humanos que lhes corporizem os desígnios.

Conspiração político-militar por um lado, insurreição de escravos por outro, ambas associadas, mas só transitoriamente convergentes, e a mistura não podia ser senão explosiva. Se o núcleo histórico do filme é abertamente conflituoso, o núcleo dramático não o é menos, com uma tecitura melodramática, que nos remete, em pleno, para o período romântico, em que a acção decorre.
E daí? dir-me-ão vós. É que o representante do Ministério Público nessa altura e neste caso, foi João José António Frederico, ilustre personagem que veio a merecer honras de menção e retrato na prestigiada Enciclopédia Luso Brasileira de 1940. Continuam certamente a não entender a minha curiosidade. Têm razão, ainda não vos dissera que este homem de quatro nomes próprios no seu nome, era nada mais nada menos que meu pentavô!
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A actuação de JJA Frederico é digna de nota, pois insurgira-se contra a forma ilegal como os cabecilhas da rebelião foram fuzilados e obteve ganho de causa junto da rainha que destituiu em consequência o Governador intransigente. Faça clique no texto ao lado para ampliá-lo e poder melhor se inteirar da questão em apreço.

domingo, 20 de abril de 2008

Acácia Americana - a árvore entre a asma e um sublime mel de abelha

Prosopis Juliflora - como me posso esquecer deste nome?... se em pelo menos seis circunstâncias este nome foi esculpido na argamassa de meu encéfalo. Ei-las:
  1. Comecei a coleccionar folhas entre páginas de livros grossos e tenho um olfacto apurado.
  2. Participei nas primeiras plantações de árvores em Cabo Verde, após a independência.
  3. Doutorei-me no Arizona, adoro grelhados (barbecues) e aprecio mel de abelha.
  4. Tenho António Advino Sabino entre meus melhores amigos e o meu PhD é em Ciências do Solo e da Água.
  5. Escrevi 50% do Relatório de Cabo Verde à Conferência sobre o Ambiente e Desenvolvimento - Rio 92
  6. Via (e vejo) a praça Alexandre Albuquerque das janelas de minha casa, sofria de bronquite asmática em criança e tenho um filho alérgico a pólen.
Cada um destes pontos dá para escrever uma longa crónica. Tenham então a paciência de ler estas mais reduzidas crónicas que se seguem:
  1. Como já tive a ocasião de vos deixar saber, na minha puberdade e adolescência adorava conviver com a Natureza e fazia colecções de insectos (com um anexo de borboletas), rochas, conchas e folhas de plantas que prensava entre as páginas de velhos e grossos livros de contabilidade do meu avô materno, comerciante falecido em 1948. A Praia-Negra e a encosta debaixo do Hospital, eram meus lugares habituais de recolha das mais diversas amostras. A referida encosta era atapetada de Jatropha Curcas, o Pinhão Manso brasileiro que em Cabo Verde responde pelo nome de Purgueira; em poucos anos a acácia americana (a tal Prosopis Juliflora) substituiu a purgueira e acabei por tentar prensar as folhas e flores dessa acácia entre as tais páginas de contabilidade. Foi nesta tentativa de prensar as folhas da acácia, que o meu olfacto apurado discerniu um odor vagamente familiar que reportei porvir da seiva das folhas em questão. Poucos dias depois, um amigo mais velho transfigurou-se, passando de um cenho franzido (ao cheirar as folhas esfareladas que eu lhe estendia entre os dedos) a um rasgado sorriso, proferindo entre gargalhadas: "Queli... tâ tchera só cabxxxxx!" e cheirava mesmo a sémen humano fresco! Foi a primeira marca indelével da Prosopis na minha mente.
  2. Após a Independência de Cabo Verde, em 1975, o Governo defrontou-se logo com um problema candente: Energia! o Mundo sofria ainda dos efeitos do "crash" petrolífero de 1973 e o humilde camponês cabo-verdiano cozinhava cachupa com lenha (esta representava mais de 80% do combustível rural). A FAO aconselhou o Governo a desencadear uma vasta campanha de florestação tendo financiado conjuntamente com a cooperação belga, a introdução maciça da acácia americana. Esta não só era resistente à seca, como também, em menos de 3 anos, iria produzir bastante lenha e vagens para as cabras e demais alimárias. E sendo assim, lá estou eu a participar nestas campanhas de florestação com saquetas de Julifloras entre as mãos! (2ª punção cerebral).
  3. Ao chegar a Tucson para estudar na Universidade do Arizona, reparei que ali também havia nas ruas uma planta muito semelhante à nossa Prosopis Juliflora. Chamavam-na de Mesquite e diziam que dava um carvão formidável para os famosos barbecue. Mais tarde vim a saber, que o mel das abelhas que sugavam o néctar das flores dessa árvore, era considerado pelos entendidos, como um mel monofloral classificado entre os melhores do mundo. Quando usei o carvão de Mesquite (mais caro) e experimentei o não menos caro "Arizona mesquite honey", adoptei-os e assim a Prosopis Juliflora Velutina (a espécie do Arizona) foi a 3ª marca indelével da acácia nas minhas memórias.
  4. Tinha então a acácia americana em muito boa conta e podia-se até dizer que era um fã deste ser vivo extraordinário. Até que em Tucson conheci de perto António Advino Sabino, o engenheiro agrónomo responsável pelos fantásticos trabalhos de correcção torrencial, luta contra a erosão das encostas, enfim, o conhecido Director Geral da Conservação de Solos da jovem República de Cabo Verde. Uma grande amizade nasceu e um belo dia, conversa puxa conversa, lá estava eu a gabar as virtudes da Prosopis... quando Sabino me interrompe quase que vociferando: "Ó rapaz, tchá diss! Ês é maior praga quês btá na Cabo Verde!" ... e lá foi ele me elucidando que a referida acácia tinha sido banida internacionalmente (proibida mesmo) pelas suas características infestantes, que só no Arizona era permitida por causa do mel e do carvão ... e em Cabo Verde pela ignorância dos então governantes. Mais dizia ele que a planta suga a água a mais de 4 metros de profundidade (o lençol freático da ilha do Maio onde temos o maior perímetro de Julifloras, desceu de tal modo que os poços secaram) e que onde ela entra nada mais cresce! Antes que meu amigo se tornasse apoplético, apressei-me a concordar com ele, mas céptico e cauteloso como era (e sou), lá fui agendando incursões às bibliotecas para me elucidar (a Internet ainda não era para nós, pois estávamos em 1987). O que li e aprendi, conjugado com o que de solos percebia, me fizeram doravante alinhar ao lado de Sabino, na luta contra a continuação do uso indevido da acácia americana em Cabo Verde. Foi esta a 4ª marca!
  5. Regressado ao INIDA em 1990 com meu PhD acabado, fui chamado a chefiar o Departamento de Recursos Naturais desse Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário. Em 1991 Sabino tornou-se Presidente do INIDA e juntos fomos a algumas conferências sobre o Ambiente. Eram oportunidades para desancar sobre a Juliflora e uma vez, numa entrevista à RCV no Mindelo, contrariei a campanha do Presidente da Câmara em prol da plantação da Prosopis,... alegando que, "a questão não é como alguns andam aí a propalar." Só que a boca resvalou para "...andam aí a papaguear!" Entretanto, Sabino orgulhava-se de ter introduzido no país uma espécie muito melhor, a Acacia holosericea (de origem australiana) que, também resistente à seca, não era nem infestante, nem esterilizava os solos. Quanto a mim, fui convidado a integrar uma equipa de quatro consultores para escrever o relatório de Cabo Verde à Conferência do Rio e aproveitei para nos 25% que me couberam, escrever 50% do relatório e dizer entre outras coisas, o que competia sobre o uso da Prosopis Juliflora em Cabo Verde. Porém, salientei que pelo facto de Cabo Verde possuir uma abelha europeia dócil (uma Apis Mellifera diferente da feroz abelha africana) e reputada por fabricar um bom mel, devia-se apostar na apicultura e aproveitar melhor as acácias. Este relatório impôs-me a quinta marca!
  6. Com esta recente marca avivada na cabeça, tudo era pretexto para maldizer a acácia americana. E para cúmulo, a paisagem que vislumbrava através das janelas da minha casa era por demais elucidativa do poder aniquilador da famigerada Prosopis. Vejam o estado calamitoso dos canteiros da Praça Alexandre Albuquerque, cuja foto da época (1991) vos apresento ao lado. Nesse ano nasceu meu filho Mauro, que pouco tempo depois acusava violentos sintomas de falta de ar, rapidamente diagnosticados como provocados por alergia a pólen de acácias. Por ter sido asmático em criança, sabia avaliar o sofrimento do petiz. Assim, creio ser esta, entre todas, a pior referência à Prosopis !
Obrigado pela vossa paciência em ler estas linhas. Que aconselharia para as políticas concernentes a esta acácia?

Obrigado e até ao próximo Domingo.

domingo, 13 de abril de 2008

Bolo de Congelador...Gelado do Amor !


Garda adora fazer este bolo-gelado em ocasiões especiais. Receita antiga do tempo dos primeiros congeladores.

Bolo de Congelador

Ingredientes

200g de manteiga
100g de chocolate em barra
125g de açúcar
3 ovos
250g de bolacha Maria

Derreter a manteiga e bater.
Derreter o chocolate em banho maria e misturar à manteiga
, juntando também o açúcar.
Deitar os ovos um a um e continuar a bater durante 20 minutos.
Partir as bolachas ao meio, humedecer cada metade ligeiramente em café preto e dispo-las numa forma que vá ao congelador (de preferência em vidro ou loiça) do seguinte modo:
  • 1ª camada do creme acima preparado
  • 2ª camada de bolachas
  • 3ª camada do creme
e assim sucessivamente, terminando por uma camada de creme.

Polvilhar com raspas de chocolate e levar ao congelador por 24horas.

Bom deleite deste cremoso bolo gelado!

Hilário Brito - CR4AD: o infectado pelo rádio-amadorismo, que dele fez uso para acabar com uma infecção fatal

O artigo que publiquei na semana passada, suscitou um interesse muito maior que aquele que realmente esperava. Por isso, acho que não devo adiar a história que prometera um dia contar.

Para estar mais abalizado para disso falar, fui visitar Hilário Brito neste fim-de-semana e ele me pôs a par de um interessante episódio: o modo como fora mordido pelo vírus do rádio-amadorismo.

Meu pai entrou em 1946 com apenas 20 anos, nos CTT (Correios Telégrafos e Telefones), como ajudante de mecânico, pela mão de, Francisco dos Reis Sousa Brito, pai dele e respeitado rádio-telegrafista daquela instituição. Aprendeu rapidamente a profissão do pai e tornou-se também rádio-telegrafista dos CTT (em 1948). Apaixonado pela electrónica, lá construiu dois emissores-receptores de morse e ofereceu um deles ao amigo Julinho Vera-Cruz, funcionário do BNU (Banco Nacional Ultramarino) e que residia na Praia (actual Plateau). Assim, Hilário, que morava ainda em casa dos pais no então subúrbio da Fazenda, passava todas as noites, horas esquecidas na cavaqueira com Julinho, através de código Morse: Táre-rare-tá-rá-re-rá...(era o "chat" da época).

Poucos meses depois, Hilário e pais mudaram-se para o Monteagarro ao norte do Plateau. Talvez por causa da altitude (mais 30m que Fazenda) um belo dia Hilário escutou uma chuva de sinais morse que não eram as de Julinho certamente, pois eram em Inglês: tratavam-se de rádio-amadores americanos que quiseram travar conversação com Hilário. Este, saltou de júbilo e contentamento indo de imediato (às 2h da madrugada) ao quarto do pai gritando (sotaque do Fogo): "Brito, Brito, alan tâ papiâ cu merca através di nhâ emissor!" Brito, irritado, sonolento e do seu proverbial mau-humor desmancha (sotaque de S. Nicolau): "Sô se fôr é de merd... bá detá bu sussegá bo dêxam durmí!" E assim, Hilário passou doravante a se preocupar com o rádio-amadorismo, ficando Julinho para trás. Em 1949 já ostentava o CR4AD.
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Em 1957 Hilário já era famoso nos concursos CR/CT e noutros em que se metia. Vários diplomas certificavam o seu desempenho rádio-amador (da Checoslováquia, da Alemanha, de Portugal, dos Estados Unidos, do Brasil,etc). As taças amontoavam-se nas estantes e os galhardetes e salvas nas paredes (Hilário ainda hoje ostenta suas taças com orgulho: vejam-no na foto à direita ao lado de algumas). Os organizadores dos concursos CR/CT acabaram por extinguir esse certame, porque os troféus iam sempre para Cabo Verde (alegaram que as condições geográficas de Cabo Verde colocava este em vantagem competitiva incontornável face às demais paragens portuguesas).

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Agora a história de como uma criança foi salva pelo rádio-amadorismo

Hilário já morava na rua Serpa Pinto, em face ao Cinema Municipal da Praia. Tinha eu cerca de oito anos e me lembro perfeitamente do dia soalheiro em que, no início dos anos sessenta do século XX, bate esbaforido à porta de nossa casa, um amigo de Hilário, o Senhor Pedro Abreu, contando desesperado que a filha (de tenra idade) iria morrer nas próximas 48 horas se não tomasse um determinado medicamento dentro de 24h. Tratava-se de uma infecção cerebral rara cujo tratamento passava pela aplicação de uma injecção de Hemoglobina Gama. Não havia este medicamento em Cabo Verde e Abreu foi ver se Hilário conseguia fazer algo através de seus emissores.

Hilário então, dirigiu suas antenas para o Brasil (ele conhecia todos os truques para falar com rádio-amadores brasileiros, - ver diploma ao lado), pôs-se imediatamente à frente dos emissores e fez em todas as bandas que seus emissores permitiam, apelos de socorro para o caso. Após várias tentativas infrutíferas (suores frios escorriam da testa de Abreu) um rádio amador de Pernambuco de nome Fernando Fraga (PY7FM) acudiu e prontificou-se a ajudar, comunicando de imediato com um outro rádio-amador do Rio de Janeiro, amigo seu e médico. Este adquiriu o tal medicamento e logo que conseguiu entregá-lo ao piloto que ia levar um avião da Varig para o Sal naquela noite, transmitiu a mensagem com as coordenadas ao PY7FM que alertou CR4AD, meu pai, sobre a hora em que chegaria o avião da Varig ao Sal. Seria no dia seguinte de madrugada e Abreu e Hilário foram ao palácio do Governo pedir ao Governador da Província que autorizasse um vôo extraordinário do Haviland Tiger Moth dos TACV ao Sal para ir buscar o medicamento em causa. Faltavam 5 horas para o momento de irreversibilidade de degradação cerebral. O Governador deu a ordem e o Tiger rumou ao Sal (o avião da Varig já tinha chegado). Faltavam duas horas e meia e o Tiger ainda estava no Sal. Quiseram aproveitar o ensejo para carregar o Tiger com os sacos de mala postal que no Sal se acumulavam. Desesperados Abreu e Hilário contactaram o Governador que ordenou o regresso imediato do Tiger, sem as malas e com apenas o tal medicamento. Hilário e Abreu foram em seguida ao aeródromo da Praia esperar pelo Tiger. Lá vinha ele a aterrar; a assistência em terra, ao corrente da situação, correu ao avião e tomou do piloto a embalagem salvadora. Meia hora antes do momento fatídico, o médico já tinha aplicado a injecção.

Duas horas depois a petiz já não tinha febre e dois dias depois já brincava. O médico Brasileiro não quis receber o dinheiro do medicamento, o Governador emitiu um louvor a Hilário e o PY7FM ficou famoso entre os rádio-amadores brasileiros.
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Assim terminou esta história feliz, graças a estes valorosos rádio-amadores que não vêem distâncias, nem nacionalidades, atrás desses microfones, antenas e altifalantes ruidosos (não deixando as esposas ou os filhos dormir). Termino eu como da outra vez, com Flávio Abrantes da Cunha (olá Zé!) cujo "Shack" se vê na foto ao lado.