domingo, 31 de agosto de 2008

Há 250 anos que o "Fonfon" tem nome científico

Como já é do vosso conhecimento pelo artigo (Kutum Ben Ben, dan papa pan dau leti...) que publiquei em Março 2008, desde cedo tive uma paixão pela entomologia, pelo que, além de estudar os insectos da terra, fazia colecção deles. Este gosto adveio da leitura (aos 11 anos) do livro "o Mundo dos Insectos" da colecção Ver e Saber da Verbo.

Um dos insectos que mais me apaixonava observar era o Fonfon, uma espécie de vespa de amarelo e preto que faz "casa-fonfon" de "papa-lama" pelos cantos dos quartos e debaixo dos móveis das nossas casas. Voltarei a este insecto daqui a pouco. Porque me lembrei então de falar dele? Eis a razão:

Estive hoje a arrumar as velharias que guardo e deparei com a caixa de insectos da minha colecção (a que apresento nesta figura de 1972) em deplorável condição: o tempo (36 anos) desfez a maior parte dos insectos. De imediato resolvi fotografar o que da caixa restava: vejam a figura anexa. Reparei então no insecto ao lado esquerdo da borboleta e lembrei-me do bicho e da data de sua classificação científica: Agosto de 1758 por Lineu. Trata-se do Sceliphron spirifex Linnaeus 1758. Vale a pena comemorar estes 250 anos e partilhar convosco a efeméride e os pormenores que se seguem:

A mulher-a-dias (sampadjuda do Fogo com a proverbial mania do "cau limpo e fréscu") que vinha limpar-nos a casa todos os Sábados, Lia Baptista de Sousa de seu nome, fartava-se de barafustar contra os fonfons que lhe tornavam a tarefa mais difícil, tal a sujeira deixada pelos ninhos de barro que aqui e ali implantavam. Olhava-me de soslaio quando lhe implorava para não destruir, pelo menos um desses ninhos, pois queria eu observar o evoluir da construção. De facto era algo maravilhoso seguir o trabalho destas vespas solitárias:


    .
  • Em seguida, o nosso fonfon carrega a bola de lama até ao sítio onde pretende construir o ninho e começa a trabalhar essa bola em anéis que irão formar células oblongas. Enquanto faz este trabalho emite um som típico: fon-fon-fon-foooon-fon, donde o nome onomatopaico que lhe deram aqui em Santiago. No Fogo "fonfon" é uma outra vespa e o nosso querido Sceliphron spirifex é em São Nicolau conhecido por "bananinha séca". NB: no Fogo o Sceliphron spirifex é conhecido por "custon fagássa".
  • Á medida que o fonfon termina uma célula, deposita dentro um ovo e vai à caça de aranhas saltitonas (os "cachorrinhos-lau-lau" por exemplo) e outras pequenas aranhas que caça sem piedade. Enche as células dessas aranhas vivas, mas por ele paralisadas (comida para o filhote) e tapa com lama.
  • Começa então a construção de uma nova célula. As células se empilham umas em cima das outras formando a tal casa fonfon que bem conhecemos. Como faz uma célula de cada vez, vai à caça e começa uma nova célula, muitas vezes não encontra a lama no mesmo sítio e a casa (ninho) tem várias cores (fazem-me lembrar algumas construções aqui do burgo).
  • Se quebrarmos uma destas casas, encontraremos células com as tais aranhas e com larvas de fonfon em diferentes estádios de metamorfose. É muito engraçado observar a reacção do fonfon quando regressa e encontra o ninho danificado: faz um ruído "fonfónico" estridente (como quem manda à pqp) e esvoaça desairado à procura do vândalo (é observar de longe, não vá a vespa ferrar o observador; mas o bicho não é agressivo). E depois se estranha que um insecto tenha... sentimentos!

Há uma outra espécie de fonfon em Cabo Verde que em vez de aranhas caça lagartas. Estes fonfons, são negros de antenas laranja e também fazem ninhos de barro. Esses ninhos são redondos (mais parecem igloos esquimós) e eles os dispõem uns ao lado dos outros.

Sem esquecer de mencionar os aspectos ecológicos das vespas, como os da luta integrada contra as pragas agrícolas, termino, remetendo-vos para uma página francesa com belas fotos do fonfon, que eles chamam de pélopée tourneur. Vejam mais fotos deste himenóptero: fonfon, vespa-oleira (em Portugal) ou também guêpe maçonne:
.


domingo, 24 de agosto de 2008

Minhas marcas olímpicas

Terminaram, as fantásticas olimpíadas de Pequim 2008. Poucas palavras encontraria para exprimir a grandiosidade deste evento. Aliás para quê, se todos estamos ao corrente disto, pois é a actualidade e as tecnologias da informação e da comunicação não nos poderiam deixar na penumbra. Os jornais encarregar-se-ão de falar de Nelson Évora, de Michael Phelps e de Ussein Bolt; não deixarão em branco as 51 medalhas de ouro da China, os recordes batidos e o esplendor havido.

No que me diz respeito, apetece-me falar das primeiras olimpíadas que despertaram a minha atenção, as de Munique em 1972. Tinha eu quase 15 anos e os conhecimentos que adquirira sobre os Jogos Olímpicos, a classe especial de ginástica do Liceu Adriano Moreira, dirigida por Carlinhos Ribeiro (da qual faziam parte meu irmão Vavuca e Sidónio Monteiro) e o lindo selo editado pelos CTT (ver o envelope do 1º dia em cima), foram o bastante para que me interessasse com entusiasmo por estes jogos. Já entendia o suficiente de política mundial para ficar chocado com os atentados terroristas ocorridos nestes jogos. Mas o choque fora largamente atenuado pela emoção das notícias dos recordes batidos e da proeza de Mark Spitz ao ganhar 7 medalhas de ouro (superada agora por Phelps). Não tínhamos televisão e consolávamos com a rádio.

As olimpíadas seguintes, as de Montreal em 1976, apanharam-me em França e lá pude seguir alguma coisa pela televisão. Jogos olímpicos fracassados (boicote pelas nações africanas, mais de 2 biliões de US dólares de prejuízo financeiro, Canadá, o país anfitrião, não ganhou uma medalha sequer, a tocha acesa por um sofisticado aparato electrónico extinguiu-se com uma forte chuvada) tiveram porém como grande vedeta a romena Nadia Elena Comăneci, que foi a primeira a ter uma nota de dez num evento olímpico de ginástica artística.

Porém, nas férias de 1980, já licenciado em Química, pude assistir pela TV a cores, em Cabo Verde, no conforto da casa de meus pais, à célebre cerimónia de encerramento das Olimpíadas de Moscovo. Célebre pelo mascote Misha, cuja imagem a derramar uma lágrima fruto de placas movidas por participantes nas arquibancadas do estádio, foi inesquecível. Com a liderança dos Estados Unidos, estes jogos foram também boicotados, desta vez por 69 países, incluindo a Alemanha Ocidental, o Canadá e o Japão. Cabo Verde porém, seguiu e aplaudiu com emoção estes jogos camaradas, e até fez emitir uma lindíssima série filatélica em comemoração; vejam os envelopes do primeiro dia, da minha colecção, que vos apresento à guisa de despedida:



domingo, 17 de agosto de 2008

Homens elegantes, bonitos e sedutores da nossa árvore: I - Os Lisboa Santos

Algumas pessoas me perguntaram se pretendia valorizar também os "homens bonitos" da árvore genealógica. Respondi sempre que não saberia como apreciar esse "grau de boniteza" e que poucas fotos tinha. Porém, comecei um exercício de separar todas as fotos antigas, de homens que me pareciam semelhantes a galãs de cinema e constatei, surpreso, que as podia inserir em quatro grupos:
  • Dois dos grupos eram de descendentes, respectivamente, de duas irmãs, bisavós minhas do lado materno
  • Um outro grupo era de descendentes dos Reis de Sousa pelo meu lado paterno.
  • Um quarto grupo continha alguns afastadíssimos parentes e maridos de parentes (casos isolados)
Escolhi para hoje, os Lisboa Santos que descendem do meu bisavô José António dos SANTOS e da minha bisavó Maria de Jesus Barbosa REZENDE (ver foto à esquerda), pois os da outra bisavó obtiveram a "boniteza" pelo lado do primeiro marido, aquele que não é meu bisavô. Escusado será dizer (visto as bisavós serem irmãs) que a "boniteza" destes que hoje vos apresento, proveio do meu bisavô José António dos SANTOS, o primeiro filho do casal que juntou LISBOA a SANTOS: Áurea Maria LISBOA e António Manuel dos SANTOS. Irão reparar, nas fotos a seguir apresentadas, os olhos grandes e pestanudos dos LISBOA e a grande testa dos SANTOS.


Vou apresentar agora oito gentlemen, quatro são filhos do casal da foto e quatro são os respectivos filhos primogénitos (netos do casal). Saberão dizer quem é o respectivo pai? Basta com o rato fazer passar o cursor sobre a foto e esperar que se abra uma janela (ou então fazer clique na foto). Se seguir o link do "Quem sou?", irá para a página do indivíduo na da árvore genealógica.


---"Quem sou?"--- ---"Quem sou?"--- ---"Quem sou?"--- ---"Quem sou?"---



---"Quem sou?"--- ---"Quem sou?"--- ---"Quem sou?"--- ---"Quem sou?"---


domingo, 10 de agosto de 2008

Estive esta semana com os maiores genealogistas da Macaronésia


Tive esta semana o ensejo de receber em minha casa dois dos maiores genealogistas da Macaronésia: Jorge Forjaz e João Nobre de Oliveira.

Começo por vos falar de Jorge Forjaz, um historiador da ilha Terceira, várias vezes premiado pelas suas obras genealógicas. Este genealogista, publicou em co-autoria com António Ornelas Mendes, nada mais nada menos, do que 8.000 páginas de Genealogias da Ilha Terceira distribuídas por 9 volumes (ocupando mais de um metro de prateleira). Se seguir o link anterior, conhecerá um pouco mais da Genealogia e dos autores dessa grandiosa obra.

Este cientista é ainda autor de muitas outras obras genealógicas como por exemplo:
Forjaz esteve agora em Cabo Verde a fazer pesquisa genealógica com vista a nos surpreender um dia com mais uma obra digna da sua reputação.

******////////************////////******

Contudo, nada como um cabo-verdiano para nos brindar com uma Genealogia das Famílias Cabo-verdianas. Este ilustre hesperitano é o Dr. João Nobre de Oliveira que, triunfalmente anunciou ter entregue o seu manuscrito no passado dia 31 de Julho. A sua obra terá também vários volumes e cobre mais de 200 famílias conhecidas em Cabo Verde. Oliveira esteve há dias comigo, e tive o privilégio de ter tido um cheirinho de sua obra nos ecrãs de meus computadores. É algo que vai ser notado e notório, à altura das grandes obras do género e da História de Cabo Verde. Eis o que Oliveira diz no seu fotolog:

Terminei

Terminei a minha maratona genealógica! Entreguei o manuscrito ao editor. Espero que tudo corra bem e possa ter cá fora as Famílias Cabo-Verdianas (Genealogia Hesperitana), antes do Natal. Vamos ver. E aproveito para pedir fotografias, principalmente de gente antiga, como algumas das que já apareceram neste fotolog. Como têm o meu mail enviem-nas legendadas em formato digital. Não é certo que inclua as fotos mas é melhor estar preparado.
Quanto a foto acima, o Director dos Serviços de Educação, Dr. Sou Chio Fai, foi uma das personalidades convidadas para transportar a tocha na sua passagem por Macau. E ele ofereceu a tocha a Educação (cada atleta ficou com a tocha que transportou, só a chama é que ia passando de tocha em tocha). Todos os funcionários puderam tirar uma foto com ela.

domingo, 3 de agosto de 2008

Pidjiguiti, apenas o vejo no selo



Nunca visitei esse "punho" mas admiro e prezo muito o selo cabo-verdiano comemorativo do 20º aniversário do Massacre de Pidjiguiti. O envelope do primeiro dia ainda é mais vibrante. Apreciem-no!

Mas ... já ninguém neste país (ou quase) se lembra da importância que a este dia (3 de Agosto) lhe davam os dirigentes do PAIGC aqui em Cabo Verde. Era até feriado nacional. Não sou o único a manifestar esta estranheza, vejam o que Miguel Barbosa apregoava há já um ano no seu blog Ziquizira:
"Lembro-me de que na escola primária tínhamos um texto alusivo a essa data e de quão importante era para a Historia de nosso país. Hoje em dia ninguém mais fala no Massacre de Pidjiguiti, nem sequer nosso partido africano que a toda a hora nos tenta convencer de que nos é credor da independência, no que parece ser mais uma tentativa (Camarada Estaline está entre nós!) de reescrever a História."
Ao que parece, os estivadores do porto de Pidjiguiti eram explorados e reivindicavam melhores salários das várias companhias exportadoras que precisavam de seus serviços. Vejamos um extracto do texto intitulado:

"...Acordo estabelecido, as várias firmas comerciais começaram a pagar aos marinheiros o novo salário. Porém, a Casa Gouveia não procedeu ao aumento e continuou a pagar pela tabela do ano anterior. Passaram-se meses e os marinheiros questionavam o gerente - na altura o ex-funcionário do quadro administrativo Intendente Carreira - sem resultados e até com uma certa sobranceria, tique que lhe deve ter ficado dos tempos de funcionário administrativo. Com o descontentamento a aumentar e ânimos cada vez mais exaltados se chegou à tristemente célebre tarde de 3 de Agosto de 1959."
Carreira
era nada mais nada menos que o conhecido e incontornável investigador cabo-verdiano António Carreira. É engraçado como a casmurrice deste valoroso cabo-verdiano deu origem à morte de 50 estivadores (segundo o PAIGC) e que muitos escamoteiam este facto infeliz na vida do conhecido historiador. Não foi ele que deu a ordem de matar, vejam mais esta parte da narrativa de Mário Dias:
"Entretanto, o comandante militar, tenente-coronel Filipe Rodrigues, chegado ao local inteirou-se da situação e, ao ver aquele grupo armado de remos, paus, etc. a marchar agressivamente em direcção à Casa Gouveia, deu ordens aos polícias para dispararem por ser a única forma de os deter."
Este texto do "furriel dos comandos Mário Dias, [que] foi um dos homens que esteve presente, quando o exército interveio em Pidjiguiti, e o seu testemunho é extremamente elucidativo, pois permite perceber o papel do exército neste drama, e filtrar a verdade dos acontecimentos", dá a visão de um português que mostra ter o PAIGC se aproveitado do facto para tirar dividendos políticos:
"O PAIGC aproveitou-se inteligentemente deste movimento, como sempre fez - o que só nos merece admiração - para conquistar mais uns tantos seguidores."
Não obstante as opiniões, o que é certo é que o dito massacre (politicamente aproveitado ou não) foi o ponto crucial da reviravolta da história em direcção à independência da Guiné e de Cabo Verde. Poderão disso se aperceber no clip de vídeo encontrado aqui e cujos 90 primeiros segundos se seguem:

.

domingo, 27 de julho de 2008

Felizes os Cabo-verdianos que na Universidade do Arizona estudaram

É com muito orgulho e nostalgia à mistura, que evoco os bons velhos tempos de estudante da Universidade do Arizona.

De 1986 a 1990 estive em Tucson, a segunda maior cidade do Arizona, a fazer o Doutoramento em Ciências do Solo e da Água. Após um ano longe da família, mandei buscar minha mulher e meu filho Marcos (com 3 anos de idade). O ambiente era muito bom, porque a malta estudantil cabo-verdiana era razoável e nos dávamos muito bem. O custo de vida nessa cidade era muito mais baixo do que nas demais cidades onde havia estudantes cabo-verdianos, pelo que vivíamos muito bem. Eu, minha mulher e filho morávamos num condomínio fechado com todas as mordomias , incluindo piscina e ginásio.


A malta cabo-verdiana dava-se bem com outros estudantes africanos e tínhamos também amigos mexicanos. Não faltavam pretextos para organizar pequenas festas onde nos divertiamos bastante. Os aniversários eram bons pretextos, bem como os momentos natalícios. Faltava a tradição do Carnaval, pelo que éramos obrigados a seguir a festa do Halloween (Dia das Bruxas.)

Deixar-vos-ei agora com um pequeno clip de um dos momentos passados há já uns bons 18 anos:

.


domingo, 20 de julho de 2008

Torta Panamá, uma torta de se lhe retirar o chapéu (de Panamá?)

Receita muito antiga, bolo preferido de minha mãe, que o fazia de vez em quando, agora recuperada e melhorada por Garda (minha mulher).

Porque se chamaria "Panamá"? Não se esqueçam que esse país é produtor de cacau (aliás os efeitos terapêuticos do cacau, foram primeiramente observados em índios panamenhos) e muitas receitas panamenhas usam o cacau directamente retirado das sementes do fruto, acabadinhas de torrar!

Antes de irmos para a receita, devo-vos dizer que é um bolo (a torta não foi enrolada mas acamada como um bolo) extraordinário, digno "de se tirar o chapéu". Esta expressão idiomática ser-vos-á convenientemente explicada após um clique na frase. Porém, o chapéu a tirar, não seria bem o do Panamá: clique em "Chapéu do Panamá" para conhecer a história desse famoso chapéu.

Torta Panamá melhorada por Garda

  • 150g de açúcar
  • 6 ovos
  • 2 colheres e meia (de sopa) de chocolate
  • 150g de nozes moídas

Batem-se seis gemas com 150g de açúcar, até se obter uma consistência de pão-de-ló. Depois de bem batida, juntam-se as 2 colheres e meia (das de sopa) de chocolate (de preferência ralado a partir de chocolate em barra), 150g de nozes moídas e por último, as seis claras batidas em castelo (bem firmes) mexendo lentamente (este é um dos segredos). Verter a massa num tabuleiro levemente untado e enfarinhado rectangular e levar ao forno (pré-aquecido) durante 30 minutos. Depois de assado, em vez de o enrolar como uma torta, cortar ao meio (de modo a ter quase dois quadrados) e empilhar as duas partes em sanduíche com um recheio chocolatado (que servirá também de cobertura.

Recheio:

Batem-se 150g de açúcar e 150g de boa manteiga, até ficar em creme fino. Juntam-se 2 gemas, 3 colheres de sopa de chocolate (em pó ou ralado) e, por último, 1 clara em castelo. Recheia-se e cobre-se com o resto. Decora-se com meias-nozes a gosto.

Bom proveito!

domingo, 13 de julho de 2008

Café margoso ou café dóxi ?

Estava eu calmamente deitado a olhar para o tecto do meu quarto e a imaginar o que iria partilhar com meus leitores neste blog ("quem me dera ter a capacidade do meu amigo João Branco do Café Margoso", cogitava), quando, por coincidência, senti um aromático odor a café, que teimava a acompanhar a brisa que pela porta de meu quarto entrava. Dei um salto, qual Arquimedes e seu Eureka! e de CiberShot em riste fui à varanda (sobranceira ao quintal) captar as imagens das quais a cena ao lado é elucidativa ilustração: "A empregada Lena torra o café do Fogo acompanhada pelo caniche Dan's".

Regressei ao meu leito inspirativo, liguei o tablet PC que poisei sobre minha barriga, conectei-me à Internet sem fios da Praia-Digital (ex internet do Filú) e comecei a pesquisar um pouco sobre esta minha paixão... o café. Entretanto, visitei o Café Margoso e depois o Mário Persona Café, dois cafés da blogosfera que sobre a preciosa bebida pouco falam, mas que do nome se servem para nos deleitar com aromáticas crónicas e as mais diversas originalidades. Reparei então, que tal como a maior parte dos bloguistas cabo-verdianos, eu só tinha neste blog, links para blogs CV. Tratei logo de fazer justiça ao Mário, colocando um link para o seu Persona Café brasileiro, que há dois anos me entretém com suas saborosas crónicas sarcásticas mas geniais sobre os mais diversos assuntos. O Café de Mário serve-lhe de pretexto para nos presentear no fim de suas crónicas com a resenha de um livro cujo teor está intimamente ligado ao objecto da crónica escrita. Chamarei a este Café o Café Dóxi, para contrapor ao Margoso de João. Embora diferentes estes dois sites têm muito em comum, pelo menos o talento de seus escribas. Coloco na parte final da faixa lateral deste Blog, um feed que absorve a crónica mais recente de Mário.

Passemos agora ao precioso líquido. João Branco, no entróito de seu Café, mostra apreciá-lo sem açúcar. Porém, o café é apreciado das mais diversas maneiras e consoante as culturas e gostos. Minha avó paterna (do Fogo) não lhe punha muito açúcar e bebia-o fumegante; minha avó materna misturava-o com chicória e bebia-o com leite. Minha sogra, introduz mais de cinco colheres-de-chá de açúcar para que possa raspar no fim a "papa doce e melada aromatizada a café".

Os Lisboetas preferem beber um expresso com açúcar: a famosa bica. Há quem diga que bica é o acrónimo de Beba Isso Com Açúcar, slogan inventado pelo café lisboeta A Brasileira, que inicialmente mal vendia o amargo cafèzinho.

Gosto de dar uma de minha graça contando coisas sobre o café. Porém, hoje só darei algumas dicas e factos comprovados sobre o aroma e o gosto desta bebida:
  • O aroma e o gosto do café, nada têm a ver com a cafeína. As diferentes substâncias que compõem esse gosto, formam-se durante o processo de torrefacção. São no entanto muito frágeis, sensíveis ao excesso de temperatura e voláteis.
  • Devemos então fornecer bastante oxigénio ao torrar o café. Por isso deve-se mexer constantemente os grãos durante o processo, para que eles estejam sempre em contacto com o ar e não aqueçam em demasia. Vejam o vídeo que se segue:

  • Oups! Creio que Lena, a empregada, deixou queimar demais o café! Não deve ficar ele preto, mas sim castanho escuro. É que o excesso de calor provoca outras reacções dos citados compostos, que se transformam em outros de gosto amargo. Estas reacções de melanização, ocorrem acima dos 96-97º centígrados (à pressão atmosférica normal).
  • Convém arrefecer rapidamente os grãos após o término da torrefacção, pois não só teríamos degradação (devido à alta temperatura) como os saborosos aromas voláteis se perderiam no ar. Truque: deitar dentro um líquido frio; mas... água não! Dita-se um cálice de whisky; este tem álcool, evapora-se depressa e o gosto que deixa confunde-se com o amargo do café.
Por agora é tudo meus caros, termino com um dito crioulo:

Alen li: sima café di pobri, ora dóxi... ora margós!


domingo, 6 de julho de 2008

Ressurreições (Cristo e República de Cabo Verde) após 33 anos do nascimento?


Coincidência ou não, é após 33 anos como país independente, que a jovem República de Cabo Verde está a iniciar, qual Cristo, a sua Ressurreição [em latim (resurrectione), grego (a·ná·sta·sis). Significa literalmente "levantar; erguer"]: Parceria especial com a União Europeia, Graduação a País de Desenvolvimento Médio, entrada na Organização Mundial do Comércio (efectiva no dia 23 de Julho) e um Processo Eleitoral para as autárquicas, sem mácula, com baixa taxa de abstenções e resultados inequívocos.

Porém, 33 anos me deixam pensar que estou a ficar velho, pois nesse tempo, já era eu um jovem com o ensino secundário feito. Lembro-me perfeitamente desse dia, o 5 de Julho de 1975, bem como da cerimónia da proclamação da Independência que se desenrolou no Campo de Futebol da Várzea (hoje Estádio).


Um dia soalheiro (ver também a crónica de Jorge Eurico, colunista do Notícias Lusófonas, aqui), lá estávamos nós, sentados ou de pé nas bancadas de cimento, à espera do início das cerimónias. Estas, começaram com o já proverbial atraso cabo-verdiano. O campo foi se enchendo de tropa e as orlas, de jornalistas e câmara-men. Na tribuna viam-se aqueles "qui bâi qui torna ben", os combatentes da Pátria (vejam a foto anexa a este parágrafo) Pedro Pires (seria o Primeiro-Ministro) Abílio Duarte (o Presidente da Assembleia Popular) e Aristides Pereira (o Presidente da República). Ao lado estava o então Primeiro-Ministro português, General Vasco Gonçalves.

Não havia vento. Chegou o momento da troca das bandeiras. Sob o hino português, lá desceu tranquilamente a bandeira das quinas. Poucos minutos depois o jovem militar Roberto Fernandes, enfiava os cordões na bandeira de Cabo Verde (aquela que nos foi dada a conhecer na véspera e que era quase a bandeira da Guiné-Bissau; a diferença residia em duas espigas de milho que, à guisa dos bigodes de Eça, amparavam a estrela negra e conferiam assim à bandeira, a sua identidade própria). Talvez por nervosismo, a tarefa não parecia fácil e após alguns minutos, lá conseguiu ele, o feito. Começa então, ao som do hino comum ao da Guiné-Bissau, a erguer-se lentamente a 1ª bandeira de Cabo Verde. Nisto, se levanta uma boa ventania e muitos exclamavam as mais disparatadas razões para a tal coincidência atmosférica.

Lá fui eu tirando fotos (as desta página por exemplo) dos momentos que achava relevantes e escutava com atenção os inflamados discursos dos dirigentes, guias que detinham a força e a luz do nosso Povo. Estes discursos e estas comemorações tornaram-se prática a cada aniversário da independência que se sucedeu nos cinco anos subsequentes. São também ocasiões para fazer lançamentos de selos e moedas comemorativas. Eu, como coleccionador que era, não pude deixar de adquirir tão preciosas peças:

Selos
Envelope do Primeiro Dia de Circulação para o
Primeiro aniversário da Independência de Cabo Verde
A imagem no selo merece que se oiça a música que se segue:


| Oiça o "Labanta braço" dos Tubarões |

Envelope do Primeiro Dia de Circulação para o
Quinto aniversário da Independência de Cabo Verde


Em filatelia o envelope e o carimbo do Primeiro Dia de Circulação, conhecido pela sigla inglesa FDC, reveste-se de particular importância para o coleccionador. Vejam aqui um dos artigos interessantes a esse respeito.

À semelhança dos FDC, em numismática são lançadas moedas comemorativas. Estas, geralmente em ouro ou em prata, são cunhadas em quantidades diminutas. As poucas que eventualmente venham a circular, são imediatamente recolhidas pelos coleccionadores amadores, fazendo assim aumentar o seu valor de venda numismática. Os coleccionadores mais entendidos, compram-nas à flor de cunho, directamente ao Banco emissor. Eis então a que adquiri nessa altura:

Moeda
Moeda em prata, comemorativa do
Primeiro aniversário da Independência Nacional



domingo, 29 de junho de 2008

O Badio entre o Betacismo e o Metaplasmo

Vou falar-vos da versão mais lógica e menos conhecida da origem da palavra "badiu" , que tem vários significados mas que hoje identifica o habitante da ilha de Santiago de Cabo Verde.

Mas,... quem sou eu para resolver falar de assuntos de linguística, se a minha formação é da área das chamadas ciências exactas?

Em primeiro lugar, neste blog, os artigos têm sempre o tal cunho pessoal e não devem ser considerados artigos científicos. Em segundo lugar, eu sempre me desenvencilhei bem em matemática (a disciplina em que melhores notas apanhava) o que me estimulava as células cinzentas da região cerebral também responsável pelos dotes linguísticos. É assim que apanhei o gosto pelo estudo da origem das palavras e a nossa língua cabo-verdiana me trouxe e traz um campo fértil e "gostoso" de pesquisa (deveras transdisciplinar) nesse domínio.

A rigor, o "badiu" designa o camponês do interior da ilha de Santiago. Tanto mais que as expressões (antigas) "badiu di fora" (de fora da cidade), "badiu burro" (retratando o carácter campónio do iletrado indivíduo) e "badiu di pé ratchado" (indicando as gretas das ourelas dos descalços pés, próprias do contacto desses mesmos pés, com a lama pedregosa dos campos cultivados) reforçam a natureza campesina do mesmo. Hoje estas expressões não têm cabimento.

A vida difícil acabou por levar o "Badiu" a migrar para outras ilhas (sec. XIX e seguintes) onde os habitantes os identificavam como oriundos da ilha de Santiago, generalizando o termo a todos os habitantes dessa ilha, incluindo os da cidade da Praia. Estes, até aos anos setenta do século XX, sabiam que o termo "badiu" lhes servia para designar os que provinham do interior de Santiago.

Vejamos agora a explicação mais conhecida da origem do termo "badiu" que em língua portuguesa se diz "badio". NB: usarei doravante o termo português badio e sem aspas.

Premissa nº1: muitas palavras do cabo-verdiano com sílabas começadas pela letra b, provieram de palavras do português com sílabas começadas pela letra v : baca, bento, cabalo, balenti, bedjo, nobo, nabadja, nabega, coba, bruga, besgu, etc. O fenómeno linguístico em causa é conhecido por betacismo

Premissa nº2: muitos escravos conseguiam fugir e deambulavam pelas montanhas e vales recônditos de Santiago. Eram chamados de "negros fujões".

Construção da explicação da origem da palavra: Esses negros fujões passavam privações e se organizavam para vir assaltar as casas na cidade e roubar comida. "Lá vêm aqueles vadios, desgraçados, fogo neles!" exclamavam as autoridades portuguesas em face dessas ocorrências. E a palavra vadio foi rapidamente passada pelos cabo-verdianos, para badio.

Esta é a versão conhecida e que, a meu ver, "mete água" por todos os lados:
  • O betacismo não é tão presente assim, que possa ser generalizado. Há muitos mais casos de conservação do v na passagem do português para o cabo-verdiano, do que à primeira vista parece. Aliás, se vadio desse badio, então porque não diríamos badiachi em vez vadiachi, ou "forti bâdia, nha guenti!" em vez de "forti vâdia, nha guenti!"
  • A maioria dos termos em b de que falamos, transitou já com o b do linguarejar dos colonos portugueses de origem nortenha, que diziam (e dizem): binho, bamos, bentania, biola, etc. E não vejo nortenhos dizer "os badios são aqueles que andam a badear por aí"
  • Mal vejo os camponeses cabo-verdianos a interiorizar um termo que era depreciativo e até pejorativo.
  • Como poderiam vadiar os camponeses, se por o serem nestas ilhas, se tornavam forçosamente sedentários e não nómadas?
  • A maior parte dos defensores do badio proveniente de vadio, não são Badios! (infiram vocês o resto)
Agora vou contar-vos a cena que na minha juventude presenciei e que desde então me convenceu do quão verossímil seria uma outra explicação.

Assisti a um momento cultural no então Instituto Cabo-verdiano do Livro, nos finais da década de setenta (do século passado). Ali se encontravam alguns intelectuais cabo-verdianos, entre os quais Felix Monteiro. Este, no decorrer de um debate, apresentou a seguinte "tese" sobre uma outra origem do vocábulo badio:

Badio vem de baldio, tendo havido a queda da letra l.

A argumentação era a de que os camponeses (estamos já no século XVIII) que forneciam frescos à cidade, cultivavam-nos nos arrabaldes da mesma ou seja nos terrenos baldios, também designados apenas por baldios.

Frases como: "vamos à praça comprar as hortaliças dos baldios (terrenos)" eram interpretadas pelos demais como "...hortaliças dos Baldios (grupo de pessoas)

A transformação linguística subjacente (supressão de fonemas) é conhecida por Metaplasmo e no caso vertente, onde o som que desaparece está no meio da palavra é uma síncope.

Baldio passa a Baldio (com o a mudo), a Badio, e a Badiu

Esta é a versão que mais faz sentido, pois:
  • O significado de camponês de "fora" se coaduna com o do habitante dos baldios.
  • A transformação por síncope é mais natural do que a por betacismo
  • A conotação não é sentida pelos próprios como desprestigiante (logo facilmente adoptada pelos mesmos).
  • Identificar alguém como baldio (dos arrabaldes) é mais evidente (traje e função na sociedade) do que identificá-lo como vadio (negro fujão).
  • Os terrenos baldios estavam "na moda" no tempo do Marquês de Pombal e foram ao longo dos anos em Portugal, sempre objecto de política agrária, polémica e referências.
  • Os habitantes da cidade da Praia não se consideravam Badios!
Vou então deixar-vos reflectir sobre:

O absurdo do Badio porvir de Vadio
&
A lógica e o fazer sentido, do Badio porvir de Baldio

Só encontrei uma referência na Internet que fale da origem baldio; mas ela é em língua alemã. Ei-la aqui

domingo, 22 de junho de 2008

Genealogistas cabo-verdianos da actualidade


Meus caros, após uma semana, cá estou eu para me classificar como um "amante da Genealogia Social". Na realidade, esta paixão é um hobby que desenvolvo, mais na óptica do coleccionador do que na de um académico. Sinto-me congratulado quando descubro um novo parente ou, melhor ainda, quando um parente me descobre e envia dados e fotos para colocar na árvore www.barrosbrito.com. Aproveito também para nesse site ser o mais didáctico possível, colocando factos históricos e eventos dignos de nota, dos indivíduos que nele figuram. A colaboração de todos é bem-vinda.

Mas, a Genealogia académica cabo-verdiana, conta com um meticuloso e sofisticado investigador, o Dr. João Manuel Ferro Nobre de Oliveira, o autor de: A Imprensa Cabo-verdiana (1820-1975) (Edição da Fundação Macau - Direcção dos serviços de Educação e Juventude; Setembro de 1998, por ocasião da visita oficial a Cabo Verde do Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira. ISBN 972-658-017-X). Este historiador, está há bastantes anos a trabalhar na História das Famílias Cabo-verdianas, obra que dentro de um a dois anos dará à estampa e que todos nós ansiamos perdidamente. Oliveira tem tudo devidamente certificado e apoiado em fontes fidedignas.

Porém, muito mais social do que eu, está o Dr. Luís António dos Santos Júnior. Este grande genealogista, não só desenvolve na Internet, uma árvore genealógica (Hesperitanas) de todos os cabo-verdianos que tenham conexões de parentesco com parentes dele, Luís (mesmo que o não sejam dele parentes; ver a nota introdutória), mas também criou um Fórum de Discussão de Genealogia Hesperitana. Neste fórum, podem-se conjugar esforços e fazer especulações sobre eventuais laços de parentesco entre personagens do antigamente e de agora.

A ilha do Fogo tem sido o exemplo de cruzamentos consanguíneos e de famílias que se misturam e remisturam, para preservar a terra, para preservar o nome, para preservar "a raça", para ... Bem, o mais complicado é que os nomes completos se repetem na linhagem vertical (isto até é fácil de deslindar) mas também em linhagens paralelas de primos. O Dr. Adalberto António José Barbosa, desenvolveu um extraordinário trabalho genealógico publicado na Internet, em que poderemos navegar através das famílias: Barbosa, Henriques, Monteiro e Vasconcelos. Adalberto conseguiu trazer à luz, estes intrincados laços de parentesco, e vale a pena a consulta.

Há outras árvores cabo-verdianas na Internet, mas as duas que mencionei são-me bastante úteis, tanto mais que os autores são meus parentes.

Fica aqui o meu reconhecimento profundo a estes três genealogistas cabo-verdianos, pelo trabalho extraordinário que têm feito em prol da história das famílias destes dez grãozinhos de terra!