domingo, 6 de junho de 2010

Estrelados ovos, expressiva pintura e roupa lavada

Ontem Sábado, houve cachupa em nossa casa. Como manda a tradição, no dia seguinte (hoje), ao pequeno-almoço serve-se a conhecida cachupa refogada, com linguiças da terra e ovo estrelado!

- "Mauro! hoje vais tu preparar a cachupa" - diz a mãe com um sorriso jocoso.
- "Coitado... nem sabe estrelar um ovo!" - remata a irmã

Com este remate, pus-me a reflectir sobre a frase, e reparei que para quem já cozinhe, estrelar um ovo lhe parece coisa tão fácil que o mais comum dos mortais é capaz de o fazer.

Será mesmo assim tão fácil? Algumas perguntas:
  • Como se quebra o ovo? Numa tigela ou num prato? directamente para a frigideira?
  • Numa frigideira de chapa grossa ou fina? Sobre uma placa aquecida e untada?
  • Um fio de azeite ou muito óleo para que se possa regar a gema com essa gordura?
  • Azeite, óleo ou manteiga?
  • Gema no final, líquida ou cozida?
  • Primeiro verte-se a clara e no fim a gema, ou de uma só vez?
  • E o sal? em cima da gema, só na clara ou em ambos? Quando é que se polvilha o sal?
  • Estrela-se um a um ou em grupo?
Bem, na realidade, isto é um pouco "à vontade do freguês!" Podemos dizer que em certa medida, deve-se distinguir entre um ovo estrelado mal passado (bom para cavalgar um bife e servir de fonte de líquido amarelo onde se pode embeber pedaços de carne ou de pão, à medida que se consome o prato) e um ovo estrelado bem passado (quando o ovo em si é a iguaria e o resto o acompanhante).

No meu entender, para um ovo estrelado mal passado, um fio de azeite sobre uma placa térmica (ou frigideira de chapa grossa e película aderente), dará o melhor resultado. Sal só sobre a gema, a meio percurso. Ovos da terra, de gema bem avermelhada, são os mais saborosos. Aqui o que se quer é "sentir o ovo!", ou seja, pôr a ênfase na intensidade do gosto.

Para um ovo estrelado bem passado, aconselho usar azeite à vontade para poder ser recolhido por uma colher e vertido em momento certo sobre a gema. Previamente, pode-se alourar um dente de alho no azeite (e/ou uma folha de louro). Retirar estes ingredientes do azeite, baixar o lume e abrir os ovos (vereficados frescos) sobre o azeite (dois ovos no máximo de cada vez). Ao esbranquecer da clara, polvilhar a gema de sal fino, aumentar de novo o lume, inclinar a frigideira e com uma colher de sopa verter o azeite quente sobre a gema até que fique cozida. Há quem prefira com uma espátula, revirar o ovo de cabeça para baixo, deixando a gema em contacto directo com o fundo da frigideira. No fim, pode-se cobrir com uma fatia fina de queijo flamengo e polvilhar com pimenta. Ou então deixar uma noz de boa manteiga se derreter sobre o ovo, salpicando-a de salsa ralada. Um ovo bem passado, é um combóio de suaves aromas pelo palato em deleite!

Antes de ir fazer o pequeno-almoço, mandei o Mauro experimentar estrelar um ovo. Saiu-se bem, embora deixasse respingar gordura quente na camisa branca que usava. A mãe mandou imediatamente colocar a camisa num alguidar com detergente. "Persil" (como salsa em francês) lia-se no boião de detergente líqido.

Fiquei curioso por saber a razão de tão estranho nome. Salsa?! Não é que uma longa história se esconde atrás desta marca (PERSIL foi lançado em 6 de Junho de 1907) cujo nome vem da junção de PERborato e SILicato de sódio, ingredientes da fórmula original! Já que estou nas efemérides do dia, o ferro de engomar eléctrico que será usado logo à noite, viu sua invenção também num dia 6 de junho (de 1882) por Henry Seely of New York City.

Finalmente: "quem foi o célebre pintor que pintou os ovos estrelados da velha?" Asks um imaginário amigo meu. (hoje é o aniversário do nascimento do artista... claro!)
.

domingo, 30 de maio de 2010

Melódica alegria entre um mel branco a um Mel Blanc

.
O nosso Orfeão da Praia, teve no dia 19 de Maio, dia do município, uma actuação histórica que deixou todos os seus membros bastante orgulhosos e com auto-estima nas alturas! Na véspera, sentia-me bastante apreensivo, pois minhas cordas vocais poderiam falhar, uma vez que estava constipado e sentia um incomodativo muco a escorrer pela garganta. Tratei logo de fazer o tratamento clássico do mel de abelha tomado lentamente às colheres. Felizmente há num dos super-mercados da capital, um mel francês de aparência turva e de cor muito clara, que, ao que parece, é de uma eficácia notável, sendo na realidade, um "Miel Blanc" de flores seleccionadas.

Para comemorar o bom desempenho havido, o Orfeão decidiu organizar um pic-nic convívio num local aprazível e perto da cidade. Foi assim que ontem dia 29, fomos a um local denominado "Sítio" em São Martinho Pequeno. Trata-se de uma propriedade rural num vale verdejante, onde o dono resolveu construir uma espécie de local de lazer, próprio para pic-nics e festas de grupos como o nosso (ver cartaz ao lado).


Na realidade foi um dia bem passado entre assadas, guitarradas, banhos de piscina ("sort of"), danças, anedotas, jogos de bisca, etc. O local era de facto interessante e tinha algum equipamento para crianças, como baloiços, dispositivos eléctricos para montar e "cavalgar" e poucos mais. Crianças, pic-nics e "Sítio" com logotipo de arara, trouxeram-me à mente o célebre programa da Rede Globo: "O Sítio do Pica-pau Amarelo" baseado na obra do mesmo nome de Monteiro Lobato. (clique na figura e aprecie o genérico do programa)


*
No artigo anterior do dia 16, falara dos "Marretas" e da "Rua Sésamo". Agora vejo-me a evocar os personagens desse tal programa brasileiro. Tentei imaginar o "pica-pau amarelo" mas o que me vem desde ontem à mente é o "Woody Woodpecker" com a sua inconfundível risada. Oiçam-no nesta polka:


*
**


A risada do Woody, foi criada por um imitador de vozes, que se celebrizou por estar atrás das vozes de mais de 400 personagens de desenhos animados americanos. Nada mais nada menos que o "homem das 1000 vozes" o inigualável Mel Blanc ! (será que tomava também o "miel blanc" de que falei?). Este fantástico artista, nascido em 30 de Maio de 1908 (faria hoje 102 anos se estivesse entre nós), notabilizou-se pela voz do Pernalonga (Bugs Bunny). Vejamos agora uma entrevista que Mel Blanc concedera no "Late Night Show" de David Letterman:


**
.

domingo, 16 de maio de 2010

O Sésamo que transportou a família ao palco


Ontem, dia 15, foi o dia internacional da família, dia instituído pelas Nações Unidas em 1993. Por ter caído este ano num Sábado, foi mais fácil engendrar um programa com a família, que, penso, foi de agrado para todos. Porém, mais fácil seria se nossos filhos fossem crianças, pois, as horas mortas seriam preenchidas com programas educativos de maior valor acrescentado que os banais, muitas vezes violentos, desenhos animados modernos.

Hoje, resolvi confeccionar um prato à moda japonesa. Não, nada de peixe cru. Tratava-se de:

Pato assado desfiado em molho teriyaki acri-doce, com sementes de sésamo tostadas.

Não penso ser necessário dar-vos a receita de pato assado. Vou apenas vos falar do molho acri-doce teriyaki:


Ingredientes (doses a olho conforme o volume da carne a que se vai juntar o molho):
  • Sementes de sésamo
  • Óleo alimentar
  • Uma colher de manteiga
  • Açúcar mascavado
  • Molho Teriyaki
  • Vinagre balsâmico
  1. Começar por doirar as sementes de sésamo (de gergelim no Brasil) no óleo alimentar.
  2. Quando a cor lhe agradar deite a colher de manteiga e abrande o lume
  3. Junte o molho teriyaki, o vinagre e o açúcar mascavado, mexendo incessantemente até engrossar
O treino ajudá-lo-á a chegar à dose certa dos ingredientes que satisfaça o seu gosto e o de seus convivas.

A arte de cozinhar, é a meu ver, baseada em três princípios subjectivos que não estão nunca claros nas receitas (nem podiam). Estes princípios têm paralelo na gestão do nosso dia-a-dia, pelo que a cozinha é uma autêntica lição de vida. Senão vejamos:
  • Princípio da dose (na vida: ser ponderado): os temperos e ingredientes devem ser bem escolhidos e obedecer a proporções criteriosamente sincronizadas em função do prato em vista.
  • Princípio do momento certo (na vida: sentido da oportunidade): os ingredientes não se colocam ao mesmo tempo, nem em qualquer ordem. O momento certo para cada ingrediente é crucial para o sucesso do prato!
  • Princípio da temperatura certa (na vida: entre a serenidade e o vigor das emoções): as reacções químicas que se sucedem, diferem consoante a energia recebida, pelo que por vezes devemos dar escaldões e por vezes o lume deve ser brando. A temperatura pode também ser regulada internamente, consoante o tipo de óleo usado (a manteiga reduz a temperatura do meio e o azeite aumenta).
Enquanto comíamos, um de meus filhos perguntou o nome das sementinhas castanhas e deliciosas que identificara no molho. Ao lhe responder "sementes de sésamo" seus olhos brilharam e evocou o célebre "Rua Sésamo" dizendo: "o nome daquele programa do pássaro amarelo ... o Poupas!".

Não sei porquê, mas logo pensei no dia anterior, o tal da família em que programas destes viriam a preceito. O pior veio mais tarde, quando em frente do computador, procurando as efemérides do dia, deparo com o vigésimo aniversário da morte do "pai dos bonecos do Sésame Street" o famoso Jim Henson. Creio que vou perder a credibilidade junto de meus leitores, se disser que é mais uma coincidência, mas o facto é que lá estava a data do falecimento deste grande criador de marionetas. Lembro-me perfeitamente desse dia em que Jim morreu, pois encontrava-me nessa altura nos Estados Unidos a doutorar-me. Durante dois dias não se falava noutra coisa senão no desaparecimento físico do autor dos "Marretas". lembram-se do genérico? ... Ei-lo:

**
****************************************************
.










Mas nesse triste dia, faleceu também uma outra grande figura do entretenimento. Os noticiários repartiam seu tempo e homenagens entre Jim Henson e Sammy Davis Jr. Porém, devido ao preconceito a proporção das notícias pendia a favor de Henson. Segundo a biografia apresentada no UOL Educação (ver aqui): "A carreira de Sammy Davis foi bastante prejudicada pelo preconceito racial, que limitou seus papéis no cinema, mesmo considerando sua parceria com amigos do Rat-Pack como Frank Sinatra e Dean Martin. O artista, porém, compensava com espetáculos ao vivo, tendo uma agenda constantemente lotada e casa cheia. "Gostem ou não de mim, eles sabem que meu espetáculo vale o dinheiro que gastaram com o ingresso", disse ele numa entrevista."

Para finalizar, vejamos um clip deste grande entertainer que faz ao seu lado, a imitação de um outro grande: Nat King Cole. Até parece um show dos Marretas!:


**

.

domingo, 28 de março de 2010

Bicentenário do nascimento de quem originou o nome de minha mulher

"E Hermengarda sentia ao contacto daquela mão fria e trémula apertando a sua, no acento dessas frases, tempestuosas como o oceano, tristes como céu proceloso, que lá, no peito do vulto que tinha ante si, havia um coração de homem vivo, onde chaga antiga e cancerosa vertia ainda sangue. A espécie de pesadelo em que se debatia desaparecera com a realidade. O repentino impulso da sua alma foi lançar-se nos braços de Eurico".

Este extracto foi tirado de um dos mais famosos romances históricos portugueses, o "Eurico o Presbítero" (cuja resenha se pode baixar aqui) de Alexandre Herculano. Neste dia, 28 de Março de 2010, em que se comemora o bicentenário do nascimento dum dos maiores escritores lusófonos do século XIX, é com grande prazer que transcrevo da wikipédia o resumo da história de Eurico e Hermengarda:

O enredo conta a história de amor entre Eurico e Hermengarda, que se passa na Espanha visigótica do século VIII. Eurico e seu amigo, Teodomiro, lutam ao lado do rei da Espanha, Vitiza, contra os "montanheses rebeldes e contra a francos, seus aliados". Depois de vencer o combate, Eurico pede ao Duque de Fávila a mão de sua filha, Hermengarda, porém este recusa o pedido ao saber que se trata de um homem de origens humildes. Eurico, então, se entrega à religiosidade, tornando-se o Presbítero de Cartéia, para se afastar das lembranças de Hermengarda, através das funções religiosas e da composição de poemas e hinos religiosos. No entanto, quando ele descobre que os árabes estão invadindo a Península Ibérica, liderados por Tárik, alerta seu amigo Teodomiro e se transforma no enigmático Cavaleiro Negro. De maneira heróica, Eurico, agora Cavaleiro Negro, luta em defesa de sua terra e, devido a seu ímpeto, ganha a admiração dos visigodos e dos demais povos da península, agora seus aliados, e lhes dá forças para combater o invasor. Quando a vitória parece certa para os godos, Sisebuto e Ebas, filhos do imperador Vitiza, traem seu povo, a fim de ganhar o trono espanhol. Logo após, Roderico, rei dos visigodos, morre na Batalha de Guadalete e o povo passa a ser liderado por Teodomiro. Enquanto isso, os árabes invadem o Mosteiro da Virgem Dolorosa e raptam Hermengarda. O Cavaleiro Negro a salva quando o "amir" estava prestes a profaná-la. Durante a fuga, Hermengarda é levada até as Astúrias, onde está seu irmão Pelágio. Em segurança numa gruta de Covadonga, Hermengarda encontra Eurico e declara seu amor por ele. Contudo, Eurico não acredita que esse amor possa se concretizar, devido às suas convicções religiosas, e revela a real identidade do Cavaleiro Negro. Ao saber disso, Hermengarda perde a razão e Eurico, ciente de suas obrigações, parte para um combate suicida contra os árabes e enfrenta os traidores Bispo Opas e Juliano, Conde de Ceuta.

É óbvio que o grande Alexandre Herculano não escrevia sobre a minha Hermengarda, mas o danado é o responsável pelo invulgar, quiçá estranho nome de minha mulher!

É que meu falecido sogro, Augusto Barbosa Barros (vejam-no na foto ao lado), era um devoto e fervoroso admirador de Alexandre Herculano. Para além de ter dado à filha o nome de Hermengarda, quando foi morar para Portugal não deixava de ir em peregrinação todos os anos, por ocasião do falecimento do malogrado historiador, à Quinta do Vale de Lobos (onde Herculano viveu seus últimos dias).

Pode baixar em Pdf o "Eurico o Presbítero" de Herculano, clicando aqui.

domingo, 14 de março de 2010

Que j'aime à faire connaître ce nombre utile aux sages



Acordei sorrindo ao me aperceber que neste dia 14 de Março, morria em 1883 o pai do comunismo (Karl Marx) e nascia em 1990, o MpD (partido liberal do nosso modesto espectro político).

Afastei mentalmente esta mania minha de harmonizar efemérides e dirigi-me ao jardim interior de minha casa (o quintal) onde, entre outros seres viventes, também se encontram aves decorativas e canoras. Entrei na ampla gaiola destes emplumados para deles cuidar, e eis que minha filha bate-me uma chapa surpresa, que resultou na fotografia que vos apresento em cabeçalho.

Após os matinais cuidados disponibilizados aos coloridos pássaros, resolvi sentar-me debaixo do caramanchão formado por videiras de uvas brancas, numa cadeira de lona virada para a gaiola, a observá-los e a ouvi-los cantar. "Pi, pi, piiii..." soava a caturra, "criiik...crik crac cric" metralhavam os fishers, e os rosicolers "zen, zeen, czzz" ritmavam os mandarins e "sherlii, scherliu chiu..." contrapunha o bengalim macho.

Precisavam de um maestro, tal a desorganização dos sons e dos cantos. Aproxima-se a primavera e eles mais se preocupam com encontrar pequenos ramos e cordéis para confeccionar os ninhos. "Looking for straws" em vez de "Sounding like Strauß" pensei eu com os meus botões, enquanto lia no meu tablet PC que Johann Strauss (pai) nascera a 14 de Março de 1804 (há 206 anos).

Lembrei-me que tinha lido num dos famosos livros da colecção "Ver & Saber", deleite da minha adolescência, que a harmonia musical estava intimamente ligada a frequências proporcionais e perfeitamente calculáveis com bastante precisão e grau de previsão.

Tratava-se do livro "Números e Figuras". Documento precioso que despertou em mim o gosto pela matemática. Li-o quando tinha 10 anos! Numa linguagem simples, fazia a correlação entre factos da vida quotidiana e noções basilares do mundo matemático. É pena que hoje em dia já não se fazem livros tão preciosos como esses.

Um desses capítulos, o que mais me impressionou, foi o da descoberta do número π (pi) . Este número irracional é mesmo estranho; uma dízima infinita não periódica, um número aproximado cujos algarismos após a vírgula tem vindo a ser objecto de muita paixão.

3,1415926 lá o íamos decorando nós no liceu. Hoje os melhores computadores já calcularam um trilhão de algarismos após a vírgula! 3/14 - March 14th, é o dia escolhido em 1988 por Larry Shaw, físico americano do Museu de Ciências Exploratorium, em São Francisco, para o "Dia internacional do Pi". O auge desta festa é em 3/14 às 1h 59mn e 26s, (vejam a foto ao lado). Há quem tente recitar o número pi com centenas de algarismos!

**

Malucos esses físicos e matemáticos diriam vocês. Mas é um desses malucos que me inspirou bastante: o que disse que um grama de matéria convertido em energia, daria para iluminar uma lâmpada de 100w durante 40 mil anos! Trata-se de Albert Einstein, o mais memorável físico de todos os tempos! Hoje, também se comemora o aniversário de seu nascimento: 14 de Março de 1879.

Assim como estes físicos, gostaria de "fazer conhecer este número útil aos de bom senso":

Que3 j'1 aime4 à1 faire5 connaître9 ce2 nombre6 utile5 aux3 sages5

os algarismos a vermelho (nº de letras na palavra) são os primeiros do número Pi, com dez casas decimais!


E agora, o que haverá de comum entre os "malucos" a seguir retratados em friso?:



  • Adoram Matemática
  • 14 de Março lhes é importante
  • Têm cabelos grisalhos, compridos e desgrenhados
  • Têm caras passíveis de caricatura e parecem muito divertidos
  • Aprenderam a língua alemã
Agora vou vos deixar com uma marcha dedicada a um glorioso marechal austríaco, que durou 70 anos no exército e naturalmente, falava também alemão: o Marechal Josef Wenzel Radetzky von Radetz.

A marcha chama-se Marcha Radetzky e é considerada a obra prima de Johann Strauß (sénior). A orquestra é a Filarmónica de Viena, dirigida por Georges Pétre, em concerto do ano novo de 2010:



**

.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Morre James Bond, nasce o ALUPEP

Não estranharia nada se o dia 14 de Fevereiro fosse consagrado como o "Dia do Camaleão" ou o "Dia do macaco de imitação"! Irão, caros leitores, perceber as razões da minha tirada à medida que eu for desenvolvendo este artigo.

A 14 de Fevereiro de 1989 morria o homem que se vê na fotografia em cima, a segurar dois maçaricos-esquimós (Numenius borealis). Este cientista, foi um ornitólogo amante de pássaros tropicais, que escreveu: A Field Guide to the Birds of the West Indies, publicado pela primeira vez em 1936. Ilustre desconhecido! Porém, seu nome foi "roubado" por Ian Fleming (confissão aqui) que dele deu vida ao mais famoso espião de todos os tempos: James Bond.

Ao que parece, por mais fidedigna que seja a cópia, sempre esta acaba por adquirir a sua própria identidade, e como tal se diferencia do original. Mesmo na clonagem isto acaba por acontecer. Veja-se o caso da célebre ovelha Dolly que se tornou famosa e poucos sabem da ovelha original. Dolly era suposta viver mais seis anos do que ela... porém, teve de ser abatida aos 6 anos (a 14 de Fevereiro de 2003) por sofrer de doença típica das ovelhas velhas (suas células tinham um DNA de 12 anos). Vejam o vídeo a seguir:

**

Precisamente um ano antes, (a 14 de Fevereiro de 2002) nascia o primeiro animal de estimação clonado: a gata c/c, carbon copy ou Copy Cat. Tratou-se do nono animal clonado na história da clonagem.

******

Mas, esta imitação que de forma darwiniana se transforma progressivamente em algo individualizado e com possibilidade de reprodução sob nova identidade, não se limita a seres materiais. Vejamos um caso "não material" que teve lugar em 14 de Fevereiro de 842: o dos Juramentos de Estrasburgo (Sacramenta Argentariae):
"Os Juramentos de Estrasburgo (Sacramenta Argentariae) marcam o nascimento da língua francesa. É nestes juramentos de ajuda mútua pronunciados em 14 de fevereiro de 842 entre dois netos de Carlos Magno, a saber, Carlos o Calvo (Charles le Chauve) e Luís o Germânico (Louis le Germanique), contra o irmão deles, Lotário I, que se encontra a primeira testemunho da existência de uma língua falada na França que era claramente separada do latim, a língua romana antepassada do francês" [tirado daqui]
Mas a língua portuguesa teve também um momento de glória a 14 de Fevereiro de 1990: o da aprovação do Projeto de Ortografia Unificada da Língua Portuguesa

No entanto, hoje 14 de Fevereiro de 2010, é Domingo gordo de Carnaval!

Vou propor um novo traje para a escrita da língua portuguesa:

o ALUPEP!

ALFABETO UNIFICADO PARA A ESCRITA DO PORTUGUÊS

Isto, porque a argumentação dos arautos do alfabeto fonológico para a língua cabo-verdiana, era a de que os cabo-verdianos eram incapazes (um autêntico atestado de incompetência e de mediocridade) de escrever bem a língua portuguesa por não saberem quando o x se lia che, cse, zz, ssi ou eix, ou quando s valia c ou z. Como o problema não foi resolvido por se aceitar o bilinguismo, e o ALUPEC foi imposto, só me resta propor que a língua portuguesa passe a ser escrita com um alfabeto fonológico: o ALUPEP.

A partir dexte mumentu já komesei a uzar u alfabetu funulójiku. Vai ser um marku istóriku nexta sidade da Praia. Oje é dia du Sãu Valentin y todux ux namuradux extão à prokura de prezentex para oferta. Bem guxtaria de vê-lux maxkarádux, kon beisux silikunadux a tentar akêlex beijux de "txintxiróti".

14 de Fevereiru é também um dia de muitux asasinatux y masakrex, bem komu de medidax de intulerânsia kontra a liberdade de expresãu.

Kreiu ke vou fikar pur aki, poix nãu guxtaria de ter um mandadu de kaptura extilu fatwa, emitidu pur sei lá ke dirijente pouku demukrátiku ke pur aí abunda, tal a sorte de Salman Rushdie kon seux Versíkulox Satânikux. Foi a 14 de Fevereiru de 1989 (nu mexmu dia em ke Bond faleseu!) ke lhe foi lansada a tal ordem de ezekusãu!

Antex purém de vux deixar, guxtaria de vux prezentear kon uma belísima futugrafia dux anux trinta, onde se podem ver kriansas vextidax de karnaval a rigôr, em frente da kâmara munisipal da sidade da Praia:

Adeux, ke já me bateram à porta kon akele mandadu de apreensãu du meu komputador!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Um gelado de natas coberto de farinha de bolacha chocolatada

No Domingo passado, minha filha Mélanie, continuando a seguir as peugadas da mãe, deleitou-nos com um gelado original, pois as bolachas que continha eram de cor de chocolate. Na realidade usara bolachas Maria de chocolate.

Alguém me diz para colocar a receita neste blog; outra alega ser uma receita tão banal que não merece destaque. Como estava tão bom, resolvi na mesma partilhar com o mundo esta receita, quanto mais não seja, pela foto do mesmo gelado, que ficou interessante. (será que gatos gostam de gelados?)



Gelado de natas com um toque da Mélanie

Ingredientes

3 pacotes (de 200ml) de nata
1 lata de leite condensado
1 colher de sopa de baunilha
1 pacote de bolachas Maria de chocolate

Com a ajuda de uma batedeira eléctrica, bater as natas até obter um consistência cremosa. Juntar o leite condensado e continuar a bater. Por fim, verter a baunilha no creme, homogeneizar e ... já está!

Verter o creme num recipiente de vidro, intercalando com camadas de farinha de bolacha. A última camada é de bolachas trituradas.

Vai então ao congelador.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Da magia de Bosco à magia de Schubert

Há dias mundiais para tudo e mais alguma coisa! Hoje, 31 de Janeiro, é o Dia mundial do Mágico e não resisto em evocar a paixão que sempre senti por esta arte, a do ilusionismo!

Em criança, tive o privilégio de assistir várias vezes aos espectáculos do, então famoso, Professor Cobrah. Este bondoso senhor, tinha o gosto de deleitar as crianças com a sua arte, não sendo porém essa a sua profissão. Se não estou em erro, ele era regente agrícola e pertencia à família Henriques, do Fogo. Um dos truques mais marcantes de Cobrah, era o dos lenços coloridos que fazia sair de um rolo de cartolina preta. O mágico fazia questão de nos provar que o cilindro negro era oco, podendo se ver através do canudo!

Naquele tempo, também havia um outro indivíduo aqui na Praia que fazia magia, mas era mais faquirismo que ilusionismo: tratava-se do " Barbosa", que se celebrizou por "comer vidro". Claro que isso de ver alguém comer vidro não me entusiasmava, preferia os truques que faziam puxar pela cabeça. À medida que crescia, tentava sempre aprender novos passes de mágica e aos 16 anos via-me eu a impressionar os colegas com truques os mais diversos. Livrei-me de alcunhas do tipo "Jojo magia", pois não eram truques de tuta-e-meia, nem os fazia por "dá cá aquela palha". Minha mulher chegou a confessar que os truques que me via fazer, tiveram influência positiva na opinião que de mim tinha, antes de lhe ter pedido namoro!

Quando fui para a universidade em França, adquiri vários livros de ilusionismo, e adorava ir a espectáculos de magia. Mais recentemente, seguia com atenção a série televisiva apresentada na SIC:

Os Segredos da Magia
Vejam um extracto:

**

Há poucos anos, assisti em Lisboa, a um fantástico filme: "O Ilusionista". Eis a sinopse:
O famoso ilusionista Eisenheim assombra as plateias de Viena com seu impressionante espectáculo de mágica. Suas apresentações despertam a curiosidade de um dos mais poderosos e cépticos homens da Europa, o Príncipe Leopold. Certo de que as mágicas não passam de fraudes, Leopold vai ao show de Eisenheim disposto a desmascará-lo. Quando Sophie, noiva de Leopold, é chamada ao palco para participar de um número, ela reconhece em Eisenheim uma paixão juvenil. Eles iniciam um romance clandestino e o príncipe delega a um inspector de polícia a missão de expor a verdade por trás do trabalho do mágico. Este, no entanto, prepara-se para executar a maior de suas ilusões.
Apreciem a apresentação deste filme:

**

Mas, porque se escolheu o dia 31 de Janeiro para o "Dia Mundial do Mágico"? É que é nesta data que se comemora o aniversário da morte (31 de Janeiro de 1888) do Santo padroeiro dos Mágicos: São João Bosco. Conta-se que, quando menino, ele ajudava a família trabalhando como acrobata, malabarista e mágico. Bosco é igualmente o fundador da Sociedade de São Francisco de Sales, mais conhecida por Salesianos. Bosco ajudou também a criar a congregação das Filhas de Maria Auxiliadora.

É caso para se dizer então AVÉ MARIA! e façamo-lo com esta famosa peça de Franz Peter Schubert, (nascido a 31 de Janeiro de 1797). Apreciem-na na inconfundível voz de Andrea Bocelli:


**

.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A.A.O. o anacoreta comunista entre o "grogo" de Santo e a aguardente do Diabo

Segundo reza a história, a 17 de Janeiro do ano 356, morria Santo Antão do Deserto, um monge nascido em 251, no Alto Egipto. A Igreja católica celebra este dia como o dia de Santo Antão. E foi assim que, quando em 17 de Janeiro de 1462 Diogo Afonso avistou a nossa ilha mais setentrional, atribuiu-lhe o nome de Santo Antão (veja aqui um apontamento interessante da Inforpress).

A leitura desse apontamento deixou-me curioso sobre a vida deste santo. Após um sobrevoo na Internet, fiquei a saber que o apelidavam ainda de: "o Eremita" ou, de "o Anacoreta". Palavra estranha esta última, que me fez lembrar um amigo, o embaixador português Eugénio Anacoreta Correia, além de me trazer à memória um solitário personagem, que muito me impressionou: António Augusto de Oliveira. Este senhor do Paúl, podia perfeitamente ser apelidado desse nome (anacoreta) se não fosse o facto de não ser nada religioso!

AAO, como assinava seu nome, possuía uma propriedade no verdejante vale do Paúl. Certa vez, acompanhei uma delegação de Professores universitários portugueses meus amigos a Santo Antão. Fomos levados à propriedade de António Oliveira, que nos recebeu muito bem e nos fez saborear um excelente grogo , debaixo de uma lendária árvore (uma amendoeira) que, contou-nos ele, pacientemente foi domando os ramos, de forma a constituir uma copa em redoma, onde os humanos pudessem disfrutar de sombra e de um espectáculo ímpar de cores e de raios de luz que dançavam por entre a folhagem e iluminavam amareladas folhas que sobre o solo jaziam.

Este então nonagenário senhor (o segundo a contar da esquerda, na fotografia ao lado) fez-nos saber que tinha sido militante do Partido Comunista Português e que o pai era um amante da botânica, tendo trazido para a ilha várias espécies vegetais, entre as quais uma variedade peculiar de cana-do-açúcar. Homem mui culto e de grande sabedoria, não deixou que lhe chamássemos de doutor, alegando não ter completado nenhum dos cursos em que se inscrevera.

Companheiro de Álvaro Cunhal e de Mário Dionísio (conhecido pintor neo-realista português), António Augusto de Oliveira sonhava poder vir a ser um conhecido pintor. É deveras interessante ler o que Mário Dionísio escreve na sua autobiografia, sobre três de seus amigos, entre os quais António Augusto:

Dos amigos que mais me acompanharam nesses anos difíceis, três havia que falavam muito de arte, particularmente de pintura. Eu ouvia-os, feliz. Fe­liz, via e revia os álbuns que me traziam para me ajudarem a dar menos pelo tempo, esses meses passando sobre os meses, os anos sobre os anos, radiografias, saídas periódicas para fazer o pneumo­tórax até quando? Via esses álbuns e sentia alguma coisa reacordar em mim.

Um dos tais três amigos desenhava muito bem, era o Álvaro Cunhal, e falava-me, com o espírito insinuante que era o seu, de museus da Europa, tantos museus!, tantos artistas! Käthe Kolwitz, uma paixão que partilhei com ele. E mandámos fa­zer seis grades a um carpinteiro meu conhecido, três para cada um, para esticar nelas telas, para pintar. Tê-las-á usado? Eu, sim. E mal. Outro, o Huertas Lobo, que faleceu há pouco, era filho de pintor, conhecia a história da arte do princípio pa­ra o fim e do fim para o princípio e ofereceu-me a caixa de óleos do pai, prova inestimável de amiza­de, o que fora do pai era sagrado para ele. O ter­ceiro, que queria ele próprio ser pintor, trouxe-me todas as suas tintas e não descansou enquanto não me viu servir-me delas. E curioso o respeito e a curiosidade (a secreta cupidez) que uma caixa de tintas me inspirava. Até o cheiro, que delícia! E a que ele me trazia, mais para eu ver, estava cheia de bisnagas de cores desconhecidas. Mas eram de­le, está claro, não me atrevia a tocar nelas. Chamava-se António Augusto de Oliveira (assinatura hieroglífica: 2 A A e um O) regressou à sua terra — Cabo Verde — a instâncias do pai, que o não via avançar no curso de Direito, onde em verdade nunca pusera os pés, e pouco mais soube dele se­não que não chegou a ser pintor. Mas era o mais teimoso. Vendo uma pequeníssima paisagem que eu ousara fazer com as tintas dele, disse-me, impa­ciente: «Deixe-se de diletantices, por favor. Pinte mesmo. A sério». Falava-me, encantado, de Gauguin (o que ele quereria ser, Cabo Verde, o inte­rior, um novo Taiti, eu bem o entendia) e de ou­tros autodidactas da aventura criadora. Chegava a ofender-se: «Está à espera de quê?»

Mas a teimosia de AAO, o engenho do mesmo em fazer curvar a amendoeira à sua maneira, as suas deambulações pela arte, pela política e pelo Direito, não podiam deixar de invocar nas minhas meninges a figura do " jornalista, editor, autor, maçon, filantropo, abolicionista, funcionário público, cientista, diplomata, inventor e xadrezista americano" que foi Benjamin Franklin. De facto, estar debaixo dessa frondosa árvore, seria um perigo em dia de trovoada! Daí a pensar no inventor do para-raios é apenas um passo.

Finalmente uma nota de apreço pela aguardente seleccionada com que nos brindou AAO, aguardente esta, que não era nem falsificada, nem conspurcada. Imagino o pai do AAO (Sr. Serafim, se bem me lembro) nos anos trinta, a produzir essa aguardente (de cana seleccionada) para sustentar o filho que , preferia fazer política e pintura, a seguir a trilha do Direito. Enquanto isso, nos Estados Unidos, Al Capone vendia bebidas desta natureza às escondidas e sob um alto clima de violência, crime e repressão. Mil vezes este saboroso grogo dos Oliveira, bebido na tranquilidade do pacato vale do Paúl, do que a duvidosa aguardente do Alfonso, caríssima e impregnada de sangue!
  • Benjamin Franklin nasceu a 17 de Janeiro de 1706
  • Alphonsus Gabriel Capone nasceu a 17 de Janeiro de 1899
Se a Al Capone lhe tivessem dado o nome do santo festejado no dia em que nasceu, falar-se-ia nos USA da "maldita aguardente do Diabo Antão". Haveria no mundo, a aguardente de Santo Antão e a aguardente do Diabo Antão.