
Numa correspondência que trocamos, esta amiga bloguista me convida a escrever algo sobre o assunto. Fiquei um pouco dividido, pois motivações diversas me compeliam em direcções antagónicas:
- Queria escrever algo para me insurgir contra o escárnio e as banalidades proferidas pela escritora Maria Estela Guedes
- Não queria escrever sobre o lagarto, pois ainda não abrira um blog de discussão científica geral.
- Queria escrever sobre o assunto, porque um antepassado meu foi parte envolvida nesta área da herptologia.
- Não queria escrever porque tinha planeado outro artigo para este Domingo (já o prometera a um amigo)
- Queria escrever porque me senti lisonjeado ao receber tal convite de uma dama que mantém um dos melhores (o mais instrutivo) blogs de Cabo Verde.
- Não queria escrever porque não é muita coisa o que poderia dizer sobre este réptil



"Em relação à colheita de material biológico de origem animal, pode-se exemplificar com a colheita de exemplares de répteis,mais concretamente Macroscincus coctei (Lagarto gigante de Cabo Verde com cerca de 60 cm de comprimento, já extinto). Se se quantificar os colectores que fizeram recolhas dessa espécie em Cabo Verde (Troschel em 1875: Bocaje 1896, Peracca 1891; Schiaretti 1891; Jamrack 1891; Green 1876 etc) e os exemplares existentes em vários Museus do mundo como por exemplo na Itália (Turin, Genoae e Florence - com 26 exemplares) em Londres (London Zoo, Natural History Museum of London) e em Portugal, e 45 exemplares importados no fim do século XIX ou seja, no Verão de 1891, pelo Sr. M. G. Peracca, poder-se-à concluir que a extinção dessa espécie se deve, em parte, à colheita desregrada de exemplares da espécie."

Estudos profundos e altamente científicos, têm sido feitos a respeito deste lagarto. Menciono um recente, em que o DNA de amostras de 75 lagartixas cabo-verdianas actuais foi comparado com o de amostras de 16 Macroscincus conservados em museus. Este estudo visa determinar se o gigantismo do Macroscincus era devido a uma evolução de uma Mabuya (as lagartixas CV actuais) ou de uma outra espécie paralela.
Outro recurso natural cuja depredação conduziu à sua extinção é o lagarto gigante, Macroscincus coctei (Balouet & Alibert, 1989; Barillie & Groombridje, 1996), espécie de réptil endémico de Cabo Verde. Durante o século XIX, a Administração Colonial Portuguesa exilou para o ilhéu Branco os infractores à lei. Admite-se que os exilados tivessem utilizado para a sua alimentação peixes, aves marinhas, bem como capturado répteis, dos quais constaria o Macroscincus coctei (Bocage, 1873, in Hazevoet, 1995). Hazevoet (1995), cita J. da Silva Feijó que deu conta da utilização da pele de Macroscincus coctei (pelos habitantes das ilhas vizinhas) para o fabrico de sapatos. Alexander (1898a, citado por Hazevoet, 1995) ainda em 1897, encontrou esse réptil nos ilhéus Raso e Branco. Em 1912, Friedlaender (1913-citado por Hazevoet, 1995), considerou-o uma espécie muito rara para o ilhéu Raso. Nos ilhéus Branco e Raso, por exemplo, havia ainda nos fins do século XIX, exemplares de Macroscincus coctei.
Como não se trata de um artigo científico, mas de uma "espécie de nota ensaísta de rodapé", não me alargarei em pormenores outros como o da classificação taxonómica, da morfologia, do modus vivendi do animal, ou mesmo do seu surgimento em Cabo Verde.
Fiquem bem e até o próximo Domingo.